Os vinhos de Marco Danielle
por Celso Nogueira



PartagasChamados artesanais, de garagem ou boutique – pela elaboração cuidadosa, tiragem limitada e preço alto – os vinhos de Marco Danielle atraíram inicialmente a atenção do meio, provocando debates entusiasmados e nem sempre civilizados em fóruns e encontros de especialistas. Agora despertam interesse cada vez maior do consumidor de vinhos de qualidade.

Seu preço (os mais caros beiram os 200 reais) mexeu fundo com o complexo de inferioridade brasileiro, mais forte no grupo que une os inconformados por terem nascido nos trópicos com os imigrantes e descendentes saudosos do antigo poder colonial europeu. Para eles, nosso país não pode ter vinhos caros porque não pode ter vinhos bons. Enganam-se, pois a qualidade do vinho brasileiro vem crescendo bastante, principalmente graças a inovadores corajosos, que podem estar em vinícolas grandes como Miolo e Salton, ou em pequenos empreendedores como Bettu e Danielle.

Os detratores do vinho nacional e de Danielle serão devidamente responsabilizados pelo uso indevido  ou descontextualizado das impressões aqui registradas.

Tirar frases do conjunto para usá-las contra seus autores ou terceiros é um recurso retórico condenável e criminoso, mas uma prática infelizmente comum em ambientes virtuais, provável herança fascista de uma minoria ainda inconformada com o enforcamento do Duce, e que se faz passar por nacionalista.

Dá a impressão de que Marcos Danielle quer ser o Anísio Santiago do vinho. Para quem não sabe, Santiago (já falecido) produzia a cachaça Havana. Mesmo depois de perder o direito à marca (recentemente recuperado), continuou vendendo sua pequena produção por mais de 200 reais a unidade, um singelo casco escuro de cerveja com seu nome. Continua vendendo, e muito bem. A marca Anísio Santiago conseguiu unir qualidade com um nome ao qual se atribui um valor. Por que Marco Danielle não pode tentar?

Ninguém acha a Anísio cara demais, e se achar, toma 51 de boca fechada. Idem para cervejas. Quem pensa que uma Baden Baden não vale quinze reais, ou que uma Eisenbahn Lust não vale quase cem, que tome Brahma. Vale lembrar que essas duas cervejarias artesanais fizeram tanto sucesso, a partir do sonho e do suor de gente entusiasmada, que foram vendidas à Schincariol por vários milhões. Produtos industriais baratos não faltam, e até o topo da pirâmide há centenas de opções nacionais e importadas, de Serra Malte a Norteña, de Paulaner a Chimay. Apreciadores de cerveja, como todos os consumidores, levam em conta o preço, claro. Mas não discutem o direito de um produtor de cobrar o que quiser por seu produto.

PartagasDeixando de lado a parte inócua da discussão, um grupo de apreciadores de vinhos se reuniu no último dia de janeiro para experimentar e discutir alguns vinhos de Marco Danielle: Prelúdio 2007, Tormentas 2007, Minimus Anima 2007 e Tormentas 2006.
As opiniões foram coletadas por mim,  Celso Nogueira, e eventuais erros são de minha responsabilidade.

Todos os vinhos foram feitos no Rio Grande do Sul, e nenhum deles passou por estágio em barricas de madeira. O produtor destaca seu esforço em obter vinhos naturais, com o mínimo de interferência humana. Por exemplo, reduziu ou eliminou o uso de SO2 como conservante. O contraponto da noite foi o Cave Antiga Reserva Marselan 2006, também gaúcho, também de um produtor pequeno, embora não chegue a ser de garagem. No final, os participantes fumaram charutos acompanhados de Porto Quinta das Tecedeiras LBV 2001.

A reunião para comentar os vinhos de Danielle foi informal, mas respeitou as exigências dos vinhos naturais de alta classe. Eles foram servidos em taças padrão ISO, entre 16º  e 18º  C, em ambiente com temperatura entre 20º  e 15º C, para quatro pessoas. Os vinhos permaneceram pelo menos uma hora em decantador. Condução e aspectos técnicos da degustação ficaram a cargo de Aldo Assada.

Participaram da prova:



Celso Nogueira: tradutor, colunista do site Charutos e Bebidas.

Aldo Assada: músico, enófilo, fundador da confraria paulista Nabucodonosor.

José Ribamar Soares: empresário, sócio dos Charutos Damatta, presidente da confraria Cigar Club.

Urias Hobaik: executivo, administrador de empresas, enófilo.

PartagasO grupo formado contou portanto com dois profundos conhecedores, Aldo e Urias, estudiosos e apreciadores de vinho de longa data, sem vínculos econômicos com o setor, consumidores independentes que desenvolveram seus conhecimentos com recursos próprios. Celso, especializado em cachaça, possui conhecimento limitado sobre vinhos, que consome principalmente com as refeições que prepara. E José Ribamar, o Riba, praticamente não bebe, exceto por um gole eventual de Porto para acompanhar seu charuto.

A ordem sugerida por Aldo, após análise dos rótulos e primeira impressão olfativa, foi Prelúdio, Tormentas 2007, Minimus Anima e Tormentas 2006. Características dos vinhos (dados de www.tormentas.com.br):



Prelúdio 2007

terra: Campos de Cima da Serra
(Cabernet-Franc + Cabernet-Sauvignon + Merlot)
12,7 % vol.
R$ 222,00 caixa 6 unidades
R$ 37,00 unitário
 
Tormentas Premium 2007
terra: Encruzilhada do Sul
(Merlot - vinificação 100% orgânica)
12,6 % vol.
R$ 960,00 caixa 6 unidades
R$ 160,00 unitário



Minimus Anima 2007

terra: Encruzilhada do Sul
(Cabernet-Sauvignon + Tannat colheita tardia + Merlot + Alicante
Bouschet)
13 % vol.
R$ 480,00 caixa 6 unidades
R$ 80,00 unitário



Tormentas Premium 2006

terra: Encruzilhada do Sul
(Pinot Noir colheita tardia + Tannat + Merlot)
14,8 % vol.
R$ 960,00 caixa 6 unidades
R$ 160,00 unitário

As impressões a seguir foram colhidas no decorrer da degustação, acompanhada de água filtrada e água mineral com gás. No final foram servidos pães (italiano e integral), queijo Brie, coxão duro sem tempero, com cocção em sous-vide e língua bovina em sous-vide acebolada, com tomate, alho, azeite de oliva e vinagre de Chateau de Valois (Pomerol). Os vinhos também foram testados na harmonização com esses comes – um queijo untuoso, uma carne neutra e outra de sabor marcante, fortemente temperada.



PartagasPrelúdio 2007

Pouco untuoso, rubro intenso, escassa fruta no nariz no início, abertura para frutas vermelhas, ligeiramente adstringente, jovem, alcoólico. Bom potencial de guarda. Deve evoluir nos próximos anos. A ausência de SO2 não resultou em características sensoriais marcantes. Mas talvez isso tenha relação com a disposição do dia seguinte: cada participante ingeriu no total mais de uma garrafa (os quatro vinhos de Danielle, o Cave Antiga e o Porto), e todos relataram total ausência dos sintomas de ressaca que acompanhariam quantidade similar de álcool, pois atribui-se ao conservante certas sensações posteriores desagradáveis.



PartagasTormentas 2007

Mais untuoso, com lágrimas grossas, cor vermelha com tons de cereja, aroma de ervas e frutas vermelhas, bom equilíbrio entre acidez e doçura. Não parece um merlot nacional típico. Deve melhorar com mais tempo de guarda, mas hoje é muito sutil, certas características se apresentam apenas a paladares sensíveis e treinados. Evoluiu bastante na taça, mostrando aromas e sabores mais complexos. Boca persistente, longa, um tanto seca.

Partagas

Minimus Anima 2007
Vermelho escuro, aroma inicial de frutas em compota, suor e couro. No nariz, destacou-se em relação aos demais. Bem estruturado, foi o preferido por unanimidade. Pronto para beber, mas deve ganhar com o tempo. Equilíbrio de acidez e doçura magnífico. Foi o único que harmonizou com a elevada carga de gordura do queijo Brie. Recebeu seguidos elogios pela evolução na taça.

Partagas

Tormentas 2006

No começo assustou, apresentando um cheiro de ovo podre que desaparece após alguns minutos na taça, ou com a agitação do decantador, dando lugar ao aroma de cereja e framboesa. Mais doce que os outros. Melhorou depois de algum tempo na taça, e tem marcante persistência. Vai bem com carnes bovinas, a harmonização com coxão duro sem tempero fez com que o vinho crescesse imensamente. É o perfeito companheiro para um belo filé grelhado, para um cozinheiro já bastaria isso.

A contra-prova

Após a análise dos vinhos de Marco Danielle tomamos o Cave Antiga Marselan 2006. Foi elogiado por todos, apresentando notas de chocolate e amêndoas, equilíbrio entre acidez e doçura, cor rubra bem escura. Embora não fosse muito complexo, destacou-se pela originalidade. Único a harmonizar com charutos. Custa aproximadamente trinta reais, mostrando a melhora dos vinhos de custo mais baixo, para consumo cotidiano.

Deixando de lado os arroubos nacionalistas que elevam nosso vinho a alturas irresponsáveis, os participantes destacaram a contínua evolução na qualidade dos caldos brasileiros, para o desespero de quem vive de costas para o país que os alimenta. Vai demorar? Sim, ainda vai demorar para o Brasil produzir vinhos que rivalizem com os melhores do mundo. Mas isso só acontecerá graças ao empenho de visionários como Marco Danielle.



Celso Nogueira   Celso Nogueira - Celso Nogueira - Tradutor literário, editor e colunista especializado em alimentos e bebidas, realiza palestras e conduz degustações sobre gastronomia, cachaça e charutos. Foi um dos fundadores e atuou como diretor da confraria Cigar Club.

 

 
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