O Vinho no Brasil
por Jandir Passos



PartagasA produção de vinhos brasileiros conta hoje com experiência, tecnologia de ponta como sensoriamento remoto, geoprocessamento, qualidade sanitária e ambiental. Aos poucos, o produto nacional concorre com bons goles estrangeiros. E tudo começou com Brás Cubas.

As videiras do Brasil vieram com a expedição colonizadora de Martim Afonso de Souza, em 1532. Brás Cubas, fundador da cidade de Santos, foi reconhecidamente, o primeiro a cultivar a vinha em nossas terras.

O primeiro produto em importância no comércio colonial era o trigo; em segundo lugar estava o vinho, tanto o que aportava em Santos e subia a Serra do Mar para chegar a São Paulo de Piratininga quanto o dos parreirais iniciados no planalto por Brás Cubas. Estes deviam ser bem abundantes, pois, em correspondência de 1585, o jesuíta Fernão Cardim afirmava nunca ter visto em Portugal tantas uvas juntas.

Por esse tempo, Gabriel Soares de Souza redigia seu Tratado Descritivo do Brasil, que traz abundantes informações sobre o início da administração na Colônia, as capitanias hereditárias e as riquezas minerais da terra.

Terminado em 1587, o livro revela:

"Já em são Paulo havia moradores que colhiam duas pipas de vinho por ano. Como fosse muito verde, porém, tornava-se preciso dar-lhe uma fervura para que não avinagrasse".

As barricas deviam ser importadas, visto que não há registro da presença de tanoeiros na Piratininga de então. Quanto ao vinho "verde" provado pelo autor, era natural que fosse considerado jovem, acídulo, pois o clima não favorecia a boa maturação das uvas.
Essa passagem faz prova também de como se havia disseminado a viticultura iniciada por Brás Cubas na fazenda do Piqueri, onde ele acumulava grande fartura de mantimentos e vinho.

Por trás dessas inquirições está o fato de o vinho ter gerado tamanha opulência entre os bandeirantes que acabou por despertar a curiosidade das autoridades locais: então, uma riqueza da terra produzida ali nos arredores rendia dinheiro e não tinha controle algum do Reino? A pergunta vinha da Câmara de São Paulo, que, na qualidade de representante legal da Coroa portuguesa, estabelecia os preços máximos e mínimos dos vinhos em circulação e tinha por obrigação recolher os impostos sobre a carne e o trigo produzidos in loco e sobre todos os produtos importados de Portugal, como sal, azeite, vinagres e vinhos.

Leis sobre o vinho já existiam na Colônia e se tornaram mais rígidas na fase em que o Brasil virou território espanhol e ficou submetido às Ordenações Filipinas (1580-1640).

O chamado "Período de União das Duas Coroas" aconteceu porque o trono de Portugal ficou vago com a morte de Dom Sebastião em 1580, que não deixou herdeiros, e foi assumido por seu parente espanhol, Filipe II. A vigilância cerrada e as cobranças ativas começaram a proporcionar receitas ao órgão do governo, que se transformaram em polpuda arrecadação a partir do século XVII.

Evidentemente, o rigor levou os comerciantes a imaginar um "jeitinho" de escapar à taxação. Assim, depois de subir a serra, o vinho chegava à Borda do Campo (região de São Bernardo do Campo) e tomava caminhos alternativos até chegar à vila de Piratininga. Com isso, um bom percentual sobre os ganhos deixava de ser recolhido aos cofres públicos. Já o vinho que entrava legalmente em São Paulo — e é claro que ao menos um pouco precisava circular legalmente — era taxado com especial dureza, pois, não tendo controle sobre a produção local nem sobre a importação, a Câmara arrancar os impostos apenas da comercialização. Em resposta, como lembra o visconde de Taunay em São Paulo no Século XVI, a Câmara por diversas vezes baixou leis sobre vinhos.

Era a importância do vinho que suscitava a cupidez e a vigilância das autoridades. Indo muito além da sua função alimentícia, como vimos, ele era considerado o fármaco mais potente da época, o elixir mais popular, o símbolo de status mais evidente, o anti-séptico mais eficaz.

A primeira degustação

Pesquisando "Atas da Cidade de São Paulo" no Arquivo do Estado, vê-se que data de 1640 a primeira Ata da Câmara de São Paulo de Piratininga a falar de vinhos. O documento registra como foi tratada uma solicitação feita pelos portugueses residentes na vila, que exigiam a padronização da qualidade dos vinhos servidos nas estalagens. Em poucos dias, as autoridades convocaram todos os comerciantes de vinhos em atividade na praça e, experimentando um por um dos produtos disponíveis para venda, consideraram aprovados "somente aqueles que tinham qualidade". Foi a primeira degustação orientada de que há registro em São Paulo!

No Rio Grande do Sul a videira chegou em 1626, trazida pelo jesuíta Roque Gonzáles quando da fundação da redução de São Nicolau, em Sete Povos das Missões, motivado pela necessidade da produção de vinho para utilização na missa. Todavia, a dificuldade inicial de adaptação de variedades viníferas em território brasileiro impediu a disseminação da vitivinicultura no Brasil. Somavam-se restrições da Coroa portuguesa, que detinha o monopólio do vinho.

Em 1742, assinala-se o renascimento da vitivinicultura rio-grandense com a chegada de sessenta casais açorianos e madeirenses radicados em rio grande e porto alegre.
Em 1813, Manoel Macedo Brum produziu o primeiro vinho em solo Gaúcho, próximo a Rio Pardo.

PartagasSaint-Hilaire, em 1820, registrou presença de vinhedos na região de Porto Alegre. No ano de 1840 o Gaúcho  José Marques Lisboa que se encontrava em Washington, enviou as primeiras amostras da cultivar Isabel ao comerciante Thomas Messiter no Rio Grande do Sul, onde estes foram plantados na Ilha dos Marinheiros e de lá a variedade se propagou em todo o Estado.

De todo modo, o vinho nacional não entrava na Corte que se instalou no Brasil. Não há nenhum registro de vinho nacional na lista preparada pelos historiadores que tiveram acesso às compras para a casa real.

Mas a família real conhecia o vinho produzido no Brasil. A princesa Isabel estava habituada a seu gosto "amargo e resinoso". Além disso, Dom Pedro II levou vinho nacional na sua grande viagem de 1871 para a Europa e o Oriente — que ficou famosa pelas suas fotos ao lado da esfinge de Gizé e das pirâmides no Cairo. Partiu Dom Pedro, com Dona Tereza Cristina e seu séqüito, em 25 de maio de 1871. Seis dias antes, o Visconde do Rio Branco encaminhou ao conselheiro Nicolau Antonio Nogueira Valle da Gama uma carta acompanhando 12 garrafas de vinho nacional que Sua Majestade desejava levar para a Europa.Terá sido um presente exótico do Brasil para algum monarca europeu? Até o momento, desconhecemos o destino dado a essas garrafas.

Com a vinda dos primeiros imigrantes italianos na Serra Gaúcha a partir de 1875, chegaram com eles também bacelos de uvas viníferas, os quais não obtiveram sucesso no seu cultivo devido ao ataque de doenças fúngicas. Insatisfeitos, foram até a região alemã de São Sebastião do Cai e substituíram suas vitis vinifera pela vitis labrusca (Isabel), que se adaptou bem à região.

Em 1968, chega ao Rio Grande do Sul vindo do Uruguai, Juan Carral Pujol e funda uma vinícola em Ana Rech, no município de Caxias do Sul. Com uma proposta bastante ousada à época, a vinícola tinha a forma de um  castelo medieval e incentivava os produtores a plantarem vitis vinifera, pagando um preço maior por elas já que ao chegar percebeu que o valor pago tradicionalmente aos produtores era o mesmo, fosse vitis vinifera, fosse variedade híbrida ou americana. Isso desmotivava os produtores a fazer o cultivo da vitis vinifera, onde a baixa produtividade é fundamental para um vinho de qualidade.

Na década de 1970, com a chegada de empresas multinacionais, houve um incremento significativo no plantio de videiras viníferas. O salto de qualidade do vinho brasileiro começou, de fato, a partir dos anos 1990. Com a abertura comercial do país, aumentou a presença de vinhos importados nos estabelecimentos comerciais nacionais e o mercado tornou-se mais competitivo. O consumidor brasileiro foi ficando com o paladar mais apurado diante de opções tão variadas, e com maior interesse pelo setor: passou a querer saber mais sobre qualidade, procedências, safras e as diversidades varietais existentes. "A Internet foi um instrumento que também ajudou bastante a apurar o conhecimento sobre a bebida", considera o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, Celito Guerra.

O avanço

Na década de 90, avanços culturais e tecnológicos, investimentos no cultivo de uvas e maior preocupação com a qualidade passam a ocorrer. “Os ganhos tecnológicos no cultivo da uva se deram, principalmente, pela ampliação no uso de mudas consideradas sadias e com certificação, e manejo mais adequado”, afirma Celito Guerra. Paulatinamente, o vinho fino brasileiro incorpora melhorias e começa a ganhar mercado. Os espumantes nacionais, por exemplo, se destacam nas competições internacionais, e o mercado interno já assimilou que o espumante brasileiro é de alta qualidade. Segundo dados da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), foram produzidos mais de 217 milhões de litros de vinho em 2006 no país, dos quais apenas 32 milhões referem-se a vinhos produzidos com uvas viníferas ou européias. A proporção ainda é pequena neste tipo de vinho, mas a qualidade da bebida nacional vem melhorando de forma consistente nos últimos 20 anos.

Biologia molecular e tecnologias de informação estão presentes, hoje, na pesquisa e na inovação realizadas nos países de maior desenvolvimento vitivinícola, assim como no Brasil. Jorge Tonietto , outro pesquisador da EMBRAPA Uva e Vinho, afirma que a produção de uvas e vinhos brasileiros conta com estudos que usam tecnologias de ponta, como recursos de sensoriamento remoto, geoprocessamento, zoneamento, qualidade sanitária e ambiental. Ele destaca, porém, que nem todos os modelos tecnológicos adotados por países produtores vizinhos são a melhor estratégia para o Brasil. "No Chile, por exemplo, que é um dos grandes produtores mundiais da bebida, o foco é investir na produção voltada para o mercado internacional; no caso do Brasil, o foco deve ser o mercado interno, que tem grande potencial para crescer."

PartagasA criação da Indicação Geográfica “Vale dos Vinhedos”, a primeira registrada no Brasil sob a Lei de Propriedade Industrial - Lei 9279, de 14 de maio de 1996, constituindo-se hoje de 375 viticultores e 32 vinícolas, em uma área de 600 hectares, foi fundamental para valorização dos vinhos ali produzidos, tanto no mercado interno, quanto externo. Em 23 de janeiro de 2007, a Indicação Geográfica Vale dos Vinhedos teve reconhecimento pela União Européia. Com isso, os vinhos e espumantes elaborados no Vale dos Vinhedos e que ostentam o Selo de Indicação de Procedência do Vale dos Vinhedos, passam a ter entrada livre nos países que integram a União Européia. Para se ter uma idéia desta importância, basta dizer que só em 2006, isto é, antes do reconhecimento, as exportações de vinhos do Vale dos Vinhedos para a Europa totalizaram 500 mil litros, atingindo cerca de 1,2 milhões de dólares

Uma proposta de classificação para os vinhos finos brasileiros
Celito Guerra propõe a seguinte classificação para os vinhos finos brasileiros:
- Vinhos de Altitude
São Joaquim, Campos Novos e Caçador, localizados em Santa Catarina.
- Vinhos dos Pampas
Candiota, Bagé, Pinheiro Machado, Encruzilhada do Sul, Sant`anna do Livramento e Taqui
- Vinhos Tropicais
São aqueles que são produzidos na latitude sul entre 8º e 9º, no Vale do são Francisco.
Essa é uma proposta que visa a valorização do vinho fino, mas não é a única. Além da Indicação geográfica, podemos ter a valorização através da marca, de vinhos varietais ou vinhos de autor. De acordo com Celito Guerra, estes conceitos estão diretamente ligados ao marketing do vinho.

Mas nem tudo são flores. O consumo de vinho fino no Brasil ainda é pequeno. Cerca de 80% do vinho consumido pela população ainda é de garrafão. Além disso, os vinhos nacionais sofrem com a concorrência dos vinhos importados, principalmente dos argentinos e chilenos. A articulação do setor produtor em torno de uma agenda comum ainda não existe. A carga tributária em cima do vinho produzido no Brasil é alta, o que dificulta ainda mais a competitividade do vinho nacional dentro do mercado interno.
O consumo per capita de vinho é muito baixo, cerca de 1,8 litros por ano, por pessoa. Uma estratégia para que esse índice aumente, é fundamental para a ampliação do mercado consumidor.

Conclusão

O vinho nacional deu um grande salto qualitativo em curto período. A Europa tem uma tradição de mais de dois mil anos de produção e consumo de vinho. O Brasil, em apenas 10-15 anos, passou a produzir vinhos de qualidade, destacando-se os espumantes, algo impensável até duas ou três décadas. Em um mercado globalizado e altamente competitivo, continuar investindo em qualidade é fundamental. Fundamental também é a ampliação do mercado consumidor. Para que o vinho nacional continue a crescer, tanto em tamanho de produção, quanto em qualidade, tais ações são condições sine qua non.

Fontes:
www.confrariadovinho-bg.com.br
www.enologia.org.br
Pesquisa e inovação: Brasil prepara-se para conquistar o mercado, Inovação Uniemp v.3 n.4 Campinas jul./ago. 2007, Gabriela di Giulio.
Presença do Vinho no Brasil - Carlos Cabral, Editora de Cultura



 

Jandir Passos - Engenheiro, físico e oficial do Exército, além de enófilo, o carioca Jandir Passos leciona Física na Academia Militar das Agulhas Negras. Enófilo e estudioso de vinho e cultura,  ministra a disciplina "História Contemporânea do Vinho" no Curso de Pós-Graduação sobre "Vinho & Cultura" da Universidade Cândido Mendes (UCAM).

 

 
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