Charutos Vera Cruz
Por Celso Nogueira
Charutos Vera Cruz

Nunca na história deste país os charutos brasileiros contaram com um relato abrangente de sua trajetória cultural e econômica capaz de valorizar sua qualidade. Contudo, o tabaco é um produto importante desde a época colonial. A proposta do lançamento da linha Terra de Vera Cruz inclui resgatar o patrimônio cultural do fumo baiano de alta qualidade, aplicado na produção de puros baianos da categoria premium.

Os charutos premium se destacam pelo emprego de folhas inteiras, torcedura manual e acabamento cuidadoso. Sua produção depende do tipo de solo e semente (o terroir), das técnicas de cultivo e fermentação, e, finalmente, da capacidade de enrolar artesanalmente as folhas. Na Bahia todos os fatores se combinam de modo único, singular. E as torcedoras baianas são capazes de fazer qualquer formato, com ótimo acabamento.

No caso do Vera Cruz, como já vem sendo chamado, estão disponíveis inicialmente as bitolas petit corona, corona, robusto, churchill, torpedo, doble corona, banqueiro e gran torpedo. A vasta gama de parejos e figurados atende aos mais diversos públicos. Todos eles podem ser encontrados na versão 100% mata fina, com capa escura ou sumatra, em anilha preta. E, na opção anilha vermelha, com blend mata fina e mata norte. Todos os modelos são feitos em Cruz das Almas por Tabacos Mata Fina, para a Tabacaria Terra de Vera Cruz, recém-fundada empresa de exportação e distribuição. Os principais mercados para o Vera Cruz são Estados Unidos e Europa. No momento, em nosso país eles estão disponíveis somente no catálogo do site Charutos e Bebidas.

O Vera Cruz é comercializado em caixas de cedro pirografadas com 25 unidades. Seu lançamento se enquadra no movimento de revalorização do tabaco nacional e da elaboração de charutos de qualidade, empreendida por diversos produtores de pequeno e médio porte, como Caravelas, Don Porfirio e Da Matta. A exemplo do que ocorreu com a cerveja brasileira, ao lado das grandes fábricas viceja uma produção artesanal, que complementa a dos grandes fabricantes e oferece uma opção de qualidade aos apreciadores de charutos finos. As três coroas da anilha do Vera Cruz indicam três gerações de fabricantes reais de charutos, de dom João VI ao fim do Império.



Charutos Vera CruzAntes dos europeus

Os índios brasileiros empregavam o tabaco em rituais sagrados havia centenas de anos, quando aqui chegaram os primeiros portugueses. Badzé era a personificação da fumaça do tabaco, que servia como canal para a comunicação entre as esferas humanas e celestes. Contudo, os jesuítas procuravam conexões entre as crenças dos tupis ou tapuias e as tradições judaico-cristãs. Na adaptação das crenças indígenas pelos jesuítas, a divindade Badzé sai de cena e a intermediação com o mundo superior passa a ser feita pelo Pai Grande, ou seja, o padre. E quem não gostar, que vá se queixar ao bispo.

Com esta cotovelada ideológica os índios viram seu legado vinculado ao tabaco virar fumaça. Sua grande contribuição cultural permaneceu no fumo de corda, um tipo original e exclusivo do Brasil, cuja importância econômica foi decrescendo conforme a crescia a urbanização, e se mantém apenas nos rincões, como coisa de caipira, ao lado do pito, e em alguns bolsões metropolitanos que valorizam produtos tradicionais da terra.

Não apenas entre os indígenas brasileiros havia rica simbologia do tabaco, pois entre os indígenas norte-americanos o cachimbo era o símbolo micro-cósmico do universo, com o barro do fornilho representando a terra, a haste de madeira a vegetação e as esculturas da haste os animais e os pássaros. Neste sentido, o cachimbo representava a união do homem com o universo, e a fumaça a alma em comunhão com Deus. Fumar serve a uma união cósmica, mais que a resolução de problemas terrenos.



Colombo

Charutos Vera Cruz O fumo foi descoberto pelos europeus logo na primeira viagem de Cristóvão Colombo (1492) às Américas. Rodrigo de Jeres e Luís de Torres, companheiros de Colombo, encontraram a planta em Cuba, entre os dias 2 e 5 de novembro. Ele foi descrito pelos cronistas da época com ares de grande novidade:

“Encontraram muitas pessoas, homens e mulheres, que iam para suas aldeias, com um tição aceso na mão, com o qual acendiam ervas, cujas fumaças aspiravam”. (*)
(*) MAHN-LOT, Marianne. Retrato histórico de Cristóvão Colombo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992, p. 56.

As tribos indígenas americanas faziam o uso da planta em rituais mágico-religiosos ou para uso medicinal. Era considerada uma planta mística utilizada, sobretudo no chamamento aos deuses, nas predições e na cura de mazelas. Desde a primeira vez que foi encontrada, a planta alcançou prestígio mundial e ficou conhecida por todo o mundo. Não tardou para que, após ter sido levado para a Europa por seus viajantes, o fumo passasse a ser largamente consumido.



Ao Redor do Mundo

Sua expansão foi caracterizada por dois movimentos relacionados aos usos hedonista, ornamental e medicinal da planta. Os precursores na utilização do fumo foram os marinheiros, que o utilizavam para passar o tempo e descansar nas longas viagens. As viagens feitas para o Atlântico contribuíram para que o fumo chegasse a praticamente todos os continentes. Na África, após ter sido levado pelos colonizadores, o fumo se expandiu rapidamente por motivos religiosos.

O ar exótico e o charme foram fatores essenciais para que a planta começasse a ser cultivada nos quintais europeus. Durante o século XVI, diversos cientistas participaram de expedições de exploração e ocupação e ressaltavam os aspectos medicinais da planta.

Charutos Vera Cruz A chegada do fumo brasileiro em Portugal foi o marco da propagação do produto pelo mundo. No início no século XVI, a planta começou a ser cultivada em nos viveiros da infanta D. Maria. Foi ali que o então embaixador da França em Portugal, Jean Nicot (1530 - 1600), conheceu a novidade e resolveu enviar para a Rainha Catarina de Médicis para ajudá-la a combater suas crises de enxaqueca.

A rainha começou a pitar e, apesar de não existir registros de cura, os nobres das cortes de outros países imitaram o hábito e aos poucos toda a população já utilizava o fumo.

O fumo consumido pelas cortes era diferente do utilizado pelos marinheiros e soldados, em corda, fumado ou mascado. A rainha utilizava um outro reduzido a pó, conhecido como rapé. Esse tipo de produto precisava de folhas de melhor qualidade e passava por um processo fabril para ser considerado uma mercadoria de luxo.

Originário, portanto, do Novo Mundo, o tabaco tomará conta do mundo entre os séculos XVI e XVII, na expressão de Braudel, que historia a viagem por ele efetuada: “A planta, cultivada na Espanha desde 1558, depressa se difundiu na França, na Inglaterra (por volta de 1565), na Itália, nos Balcãs, na Rússia. Em 1575 chega às Filipinas, com o “galeão de Manilla”; em 1582, à Virginia, onde a sua cultura tem um primeiro progresso a partir de 1612; ao Japão, em 1590; a Macau, a partir de 1600; a Java, em 1601; à Índia e ao Ceilão por volta de 1605-1610.”

Charutos Vera Cruz Erva Santa

Os portugueses herdaram do indígena o hábito de utilizarem um certo fumo extraído de uma erva santa, que era antes bebido que tragado. Beber fumo era como se designava, no período colonial, pelo menos em suas primeiras décadas, o ato de fumar, segundo a descrição de Cardim:

“A alguns faz muito mal e os atordoa e embebeda; a outros faz bem e lhes faz deitar muitas reimas pela boca. As mulheres também o bebem, mas são as velhas e enfermas, porque ele é muito medicinal, principalmente para os doentes de asma, cabeça ou estômago, e daqui vêm grande parte dos portugueses beberem este fumo, e o tem por vício ou preguiça, e imitando os índios, gastam nisso dias e noites.”

Mas sua oferta, no Brasil, demorou a se expandir. Permaneceu o fumo, no período colonial, sendo artigo escasso e ansiosamente consumido, e os que tomavam tabaco em “pó se viam desesperados pelo não terem”. O tabaco foi consumido no Brasil colonial em forma de rapé mas, também, como fumo de cachimbo e de mascar, e Antonil menciona tal consumo: “Homens há que, parece, não podem viver sem este quinto elemento, cachimbando a qualquer hora em casa e nos caminhos, mascando as suas folhas, usando de torcidas e enchendo os narizes deste pó”.



Produto de exportação

Durante o período colonial, de 1500 a 1822, desenvolvem-se no Brasil múltiplas atividades econômicas de subsistência e de exportação. As que mais interessam à metrópole e a sua política mercantilista são aquelas dirigidas para o mercado externo, submetidas direta ou indiretamente ao monopólio e à tributação real.

A primeira atividade econômica da colônia é a exploração do pau-brasil, que perde a importância quando as árvores começam a escassear na região da mata Atlântica. Destacam-se então as monoculturas exportadoras de cana-de-açúcar, algodão e tabaco e a mineração de ouro e diamante, ramos em geral baseados na grande propriedade e na escravidão. Paralelamente, a criação de gado, vista como um meio de subsistência, contribui para a colonização do interior do país.

A criação, por parte da Coroa, de uma Junta do Tabaco, em 1674, dá a dimensão da importância atribuída ao produto. Ele era utilizado como moeda de troca no tráfico de escravos, o que permite entendermos sua inserção na economia colonial.
A produção e comercialização, enfim, gerou uma camada de lavradores enriquecidos, mas não criou uma nobreza. Talvez por estar diretamente ligado ao comércio com a África, a produção de fumo gerava riqueza, mas os que enriqueciam-se com ela permaneciam como uma camada social desprovida do status outorgado aos senhores de engenho. Otabaco era a cultura do ‘pequeno homem’: não era necessário o grande capital envolvido na operação de um engenho e os lavradores de tabaco não eram nem tão ricos nem tão poderosos politicamente quanto os fazendeiros de açúcar".

A produção de tabaco deu-se, no Brasil, em termos de ciclos fortemente ligados ao tráfico de escravos, sendo centrada na Bahia, tanto que a produção encolheu com as restrições ao tráfico, correspondendo a 25% das exportações baianas entre 1796 e 1807, e caindo para 7,7% do total em 1840. Mas este não foi um fenômeno restrito à produção brasileira. A região de Maracaibo, na América Espanhola, por exemplo, teve sua economia dominada pelo tabaco, em um ciclo que se esgotou e foi substituído pelo do cacau: trajetória muito semelhante à vivida pela economia baiana.

A Coroa também demonstrou interesse pelo produto. Assim é que, organizando-se em monopólio ou estanco em Portugal, o tabaco teve, ali, proibida sua cultura, em uma época na qual começou a ser largamente consumido, o que tornou seu comércio altamente lucrativo.



Charutos Vera CruzSurge o charuto brasileiro

Já durante o Império o uso do tabaco sofisticou-se: entrou na moda, tornou-se requisito para pessoas elegantes, embora o mais utilizado fosse o charuto, e não mais o cachimbo, comum entre os negros ou índios e, por isso, mal visto nos salões do período. Portanto, por uma questão de status, em oposição ao popular cachimbo, o charuto se consagrou.

Durante o Império, fumar passou a ser um rito de passagem: significava a transição do adolescente para a idade adulta. Fumar na presença de adultos significava ser aceito como um deles. Outros hábitos foram mantidos, alguns foram transformados. O cachimbo permaneceu como opção dos pobres, que passaram depois ao cigarro de palha ou papel, primeiro artesanal, depois industrial, além de consumir rapé em quantidade, até os anos 1940; o charuto só deixava de ser associado às classes superiores nos momentos em que servia a rituais africanos.

Temos uma evolução do habito de fumar que se deu a partir de diferentes preferências e costumes, com tal hábito ganhando progressiva respeitabilidade, o surgimento do rapé desbancando seus demais concorrentes e o charuto, finalmente, tornando-se um
vício aristocrático que terminou suplantando o rapé de forma mais ou menos generalizada.



As pesquisas de Jean Nardi

Jean Baptiste Nardi nasceu em 1952 na cidade de Marselha, na França, mas viveu até os 20 anos na Alemanha de onde ganhou a paixão para os charutos brasileiros. Em 1978 chegou ao Brasil e visitou as fábricas da Bahia. Interessou-se pela língua e cultura do país e a partir de 1982 consolidou seus laços com o Brasil e acabou por se radicalizar no país. Especializou-se em história econômica do Brasil, sendo mestre e doutor pela Universidade de Provence e Unicamp (São Paulo), tendo o fumo como tema principal de pesquisa.

Nardi destaca a conjuntura favorável para o investimento em qualidade, criada pelo boom do consumo mundial de charutos. Segundo ele, o arranco começa em 1996 e ocorre principalmente nos Estados Unidos e na União Européia – e por reflexo no Brasil. O mercado norte-americano cresce de maneira espantosa; passa de 3,6 bilhões de unidades em 1995 para 5,2 bilhões 1997, ou seja, um aumento de mais de 40% em dois anos. Em 1997, vendem-se quase 11 bilhões de unidades nos sete países que mais fumam charutos e cigarrilhas. A França é o segundo país colocado, com mais de 1,5 bilhões, seguido pela Alemanha com 1,2 bilhões e a Grã-Bretanha com 1 bilhão; a Espanha, a Bélgica e os Países Baixos consomem, em conjunto, 1,9 bilhões de unidades.

A parte dos charutos feitos à mão é reduzida: representa menos de 5 % do consumo global. No entanto a procura cresce consideravelmente. Assim, a produção de Cuba passa de 60 para 160 milhões de charutos entre 1991 e 1998 e está atualmente entre 200 e 300 milhões de unidades. Além dos havanas existem os charutos da República Dominicana, Honduras, Nicarágua, Jamaica, México.

Em 1996, segundo fontes empresariais, a Bahia não conseguia atender a repentina e grande demanda em charutos por parte dos estrangeiros. Em 1997, o valor das exportações, com 1,74 milhão de dólares, aumenta de 63% em relação ao ano anterior.

O “boom” dos charutos fez crescer a procura dos fumos escuros para enchimento e capa. Convém assinalar que as quantidades necessárias para a fabricação de charutos são ínfimas em relação aos volumes consumidos pela indústria dos cigarros: 100 toneladas permitem produzir milhões de charutos, grandes e pequenos; o impacto do “boom dos charutos”, portanto, em termos de quantidade produzida é relativamente pequeno.

De todo modo, cresce a produção de fumos para charutos em muitos países. Nos Estados Unidos a folha connecticut ganha fama e até chega a ser importada pelos fabricantes da Bahia. O Equador passa a produzir ótimas folhas connecticut e sumatra e conquista mercados externos. Aumenta também a produção em outros países do Caribe, como a República Dominicana – isso a partir dos anos 60 devido ao embargo contra Cuba – e da América Central tais como Honduras e Nicarágua. Existem outros países produtores de fumos escuros para charutos que se apresentam como grandes concorrentes do Brasil: Camarões e Filipinas.



Da corda à folha

Charutos Vera Cruz O historiador ressalta a transição do fumo de corda para o de folha, na Bahia e em Arapiraca, entre os anos 1960 e 1990:

A elevação do preço (nos anos 1970) não surte modificação imediata significativa do volume produzido na Bahia. Pelo contrário, provoca o aumento da procura do fumo alagoano cujo preço é quase a metade do que na Bahia. Sobe também o preço em Alagoas, mas em proporção inferior; assim, em 1980, ele ainda está abaixo do preço do fumo baiano de 1976. Em conseqüência opera-se entre 1975 e 1985 uma transferência radical da produção de fumo de corda da Bahia para Alagoas.

Os compradores de corda incentivam a produção em Alagoas. Por isso, esta dá um salto de 65% entre 1976 e 1977, passando de 20 mil para 30 mil t. e a lavoura expande-se nos municípios da região fumageira. No início dos anos 80 existem treze empresas de fumo desfiado em Arapiraca. Durante alguns anos, as produções baiana e alagoana de corda, em vez de se completar, somam-se, chegando a níveis absurdos: cerca de 50 mil toneladas em 1982! A oferta é duas vezes superior à demanda e o mercado acaba regulando a produção.

Na luta feroz que opõe os dois estados, por uma questão de qualidade e preço, a Bahia foi obrigada a abrir mão desse fumo, entre 1983 e 1985, ficando apenas com o fumo em folha. É um fato histórico de primeira importância, pois termina aqui 400 anos de cultura do fumo de corda na Bahia.

As empresas do setor de fumo em folha, principalmente exportadoras, também têm um papel fundamental no desenvolvimento da cultura em Alagoas. A partir de 1946, corretores de empresas baianas vão abastecer-se em fumo em folha mais barato de que na Bahia. O fumo arapiraquense é exportado pelo porto de Salvador como se fosse baiano, mas as quantidades são pequenas.

A reforma tributária de 1966 cria o ICMS que modifica as condições de comercialização interestadual, elevando o custo da expedição do fumo de Alagoas para a Bahia. Por essa razão, as empresas nacionais e estrangeiras já atuando na Bahia instalam armazéns em Arapiraca e fazem as expedições de fumo pelo porto de Maceió. No início da década de 80, dez empresas exportadores atuam em Alagoas.

Com o aumento do preço na Bahia, como já dissemos, cresce a demanda de fumo em folha em Arapiraca e aumenta a produção. E na Bahia, assim como no caso do fumo de corda e na mesma época, a produção de fumo em folha da Bahia diminui. A queda, porém, não é tão drástica quanto a do fumo de corda, pois limita-se à uns 50%. Em termos empresariais, registra-se a mesma tendência, pois em 1982 sobram 18 firmas exportadoras das 32 firmas que existiam na Bahia em 1970. (...)

Na saída da crise, em 1985, Alagoas representa cerca de 90% do fumo de corda produzido no Brasil e 50% do fumo em folha nordestino. Logo, a crise dos anos 75-85 atinge profundamente e exclusivamente a Bahia de forma negativa e dela resulta a concentração da cultura em Alagoas.

As conseqüências na Bahia, porém, são relativas na medida em que os segmentos do fumo de corda e do fumo em folha são totalmente diferenciados, o que não é o caso de Arapiraca. Na Bahia, embora diminua, permanece a produção o fumo em folha para charutos nacionais e exportação que, em termos econômicos, representava cerca de 80% do valor gerido pelo fumo no Estado, em transformação industrial, comércio e tributos.



Sumatra na Bahia

Charutos Vera Cruz Contudo, a transferência da produção para o Estado de Alagoas, por mais interessante que fosse em termos financeiros imediatos, talvez não fosse uma boa opção em termos de qualidade e volume produzido e exportado. Com efeito, entre 1980 e 1985 a produção da Indonésia aumenta consideravelmente, de 85 mil t. para 161 mil (FAO, 2004), ocupando um espaço antes preenchido pela Bahia no mercado internacional, ainda que o tipo de fumo asiático, principalmente o sumatra, seja um pouco diferente do baiano.

Em reação, as empresas começam a produzir na Bahia o fumo sumatra, geralmente em campos próprios por razões essencialmente técnicas mas em prejuízo dos pequenos produtores locais tradicionais. A Agro-Comercial Fumageira, por exemplo, planta 500 ha. deste fumo no final da década de 80. Além da exportação, este tipo serve para capas de charutos nacionais, que assim perdem um pouco da autenticidade que fez sua reputação.

O fumo de corda é um produto exclusivamente brasileiro. É o fumo que os índios fabricavam aqui e cuja técnica os colonos portugueses aperfeiçoaram, criando máquinas e apetrechos para preparar a corda, as bolas e os rolos. A cultura comercial do fumo no Brasil começa por volta de 1570 nas regiões costeiras da Bahia e de Pernambuco a que pertencia o atual Estado de Alagoas. Segundo relatórios holandeses, por volta de 1630, o fumo é cultivado na região de Porto Calvo e no litoral sul, sendo o primeiro de melhor qualidade. Entretanto, a ocupação holandesa, com os conflitos que ocasiona, favorece o crescimento da cultura na Bahia que se consolida como primeira região fumageira do Brasil-colônia.

Em 1674, Portugal estabelece o Monopólio Real dos Tabacos e transforma a Bahia em região produtora exclusivamente voltada para o mercado externo. O fumo de qualidade é exportado para Portugal e Europa, sendo a Espanha o principal comprador. O fumo de refugo é enviado para a Costa da Mina, na África Ocidental, onde serve de moeda para comprar escravos.

Um pouco da produção baiana fica para o consumo local e também vai para o Rio de Janeiro. Contudo, com a descoberta do ouro e o desenvolvimento da atual região Sudeste, a quantidade do fumo baiano é insuficiente para atender as necessidades. Começa então, por volta de 1720, a cultura do fumo em Minas Gerais. Cresce tanto a produção que o fumo mineiro chega a ser exportado clandestinamente para as colônias espanholas vizinhas de Montevidéu e Buenos Aires.

À véspera da Independência, o Brasil produz cerca de 9.500 toneladas, sendo 9 mil pela Bahia e 500 pelas Minas Gerais. O mercado europeu representa 70% das exportações e a África os 30% restantes. Devemos notar que a produção fumageira do Brasil é composta quase exclusivamente de fumo de corda. A produção de fumo em folha, embora começasse por volta de 1750, representa 1% das exportações e é destinado à Índia Portuguesa.



Charutos Vera CruzSéculo XIX : charutos e primeiros cigarros

Após a Independência, a produção brasileira de fumo modifica-se. Até a extinção do tráfico negreiro, em 1850, a produção de fumo de corda na Bahia ainda é importante. Mas no espaço de poucos anos ela foi substituída pela produção de fumo em folha destinado à fabricação de charutos, principal produto consumido no mundo no século XIX. É o que chamamos de “primeira revolução fumageira brasileira”. Essa mudança realiza-se no Recôncavo baiano e a área cultivada expande-se na periferia da região para a produção de fumo de corda (Sertão).

Desenvolve-se a indústria dos charutos na Bahia, mas a maior parte do fumo em folha é exportada para a Alemanha que é naquela época grande consumidora, além de ser o centro do comércio internacional do fumo. O fumo de corda da Bahia é destinado ao mercado interno, mas pelas dificuldades das comunicações internas, todas as províncias – depois estados – começam a produzir este fumo em quantidades variáveis. A produção cresce sobretudo em Minas Gerais, São Paulo e no Rio Grande do Sul. Em 1920, esses três estados, com a Bahia, representam 80% da produção brasileira.

A partir de 1880, a fabricação dos cigarros passa a ser totalmente mecanizada graças à invenção de máquinas cada vez mais sofisticadas. Depois de 1910, o cigarro torna-se o principal produto do fumo consumido no mundo.

Todos os fumos cultivados no mundo eram de tipo escuro, ou negro. Mas criam-se nos Estados Unidos, por volta de 1870, novos tipos de fumos - o virgínia e o burley - conhecidos como “fumos claros” cujo mercado não pára então de crescer. Os fumos claros começam a ser produzidos no Brasil em 1920, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina: é a “segunda revolução fumageira brasileira”.



O fumo no Sul

A Souza Cruz, indústria de cigarros criada em 1903 no Rio de Janeiro e comprada em 1914 pela British American Tobacco, está na origem dessa mudança. Rapidamente a produção sulina cresce até suplantar a produção dos demais estados. Em 1940, o Rio Grande do Sul e Santa Catarina já representam 40% da produção nacional.
A partir daí, o Brasil divide-se em três regiões, conforme o tipo de fumo cultivado:

a) A primeira região é a região Sul (RS, SC e PR) com os fumos claros para cigarros;
b) A segunda região reúne parte da produção da Bahia e de Alagoas com o fumo em folha escuro para charutos e cigarros;
c) A terceira região compreende outra parte da Bahia e de Alagoas e todos os outros estados do Brasil, com destaque de Minas Gerais, com o fumo de corda.

Com isso, consagrou-se a vocação baiana para o cultivo de tabacos de qualidade, em folha, para o preparo de charutos, em grande parte destinados à exportação em fardos. O Sul ficou com os tabacos para cigarro, e Alagoas com o fumo de corda. Com foco na qualidade, os novos produtores de charutos baianos buscam ampliar a participação dos puros brasileiros no mercado internacional, lançando marcas como Terra de Santa Cruz.



Sæculum - Revista de História

Pompa, Cristina. 2003. Religião como tradução: missionários, Tupi e Tapuia no Brasil colonial. Bauru, SP, Edusc.
João Azevedo Fernandes - Departamento de História, UFPb
Mana vol.10 no.1 Rio de Janeiro Apr. 2004
O uso de drogas e tabaco em ritos religiosos e na sociedade brasileira:
Uma análise comparativa. Ricardo Luiz de Souza.
Cardim, Fernão. Tratado da terra e gente do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional.
Braudel, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII - Vol. II. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
Antonil, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1982.
O tabaco na economia colonial da américa portuguesa. Gustavo Acioli.

 

 
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