O charuteiro bossa nova: Tom Jobim
por Celso Nogueira



clique e saiba maisApreciador de puros como Partagas e RyJ, Tom Jobim também gostava dos toscanos e nacionais da Suerdieck.  "Dinheiro é bom para comprar uísque, charuto e pagar o aluguel", dizia Jobim, atribuindo a frase a Chico Buarque.

O ano de 2008 foi marcado pelas comemorações do cinqüentenário da Bossa Nova. Com justiça um dos homenageados foi Tom Jobim, com direito a show de Caetano Veloso e Roberto Carlos, juntos pela primeira vez num espetáculo inteiro.

Antonio Carlos de Almeida Jobim, músico brasileiro e internacional, arranjador, pianista e compositor, é lembrado por clássicos da MPB, como Águas de Março, A Felicidade, Sabiá, a Garota de Ipanema, Se Todos Fossem Iguais a Você, Lígia, Desafinado, Samba de Uma Nota Só, Insensatez, Samba do Avião, Matita Perê e tantas outras.

A escritora Raquel de Queiroz escreveu em 1973, para o jornal Última Hora, uma crônica inspirada em Águas de Março: “Tom Jobim escreveu e compôs o poema musical das Águas de Março, coisa bela e estranha, dura; fere o coração com um toque de pedra e depois o afoga na cheia das águas. Promete e recorda, memória de infância e angústias da força do homem. E até num velho pode suscitar nostalgias antigas.”

O grande maestro, como se pode notar pelas fotos em que aparece empunhando um puro, tornou-se apreciador de charutos há trinta anos, segundo a cantora Miúcha, que o acompanhava numa viagem a Nova York. O episódio foi citado por Pedro de Vargas na revista Gula: “O Tom parou de fumar cigarro em 1978, quando estávamos fazendo o primeiro disco em Nova York. Acho que o charuto veio, naquele momento, como uma forma de substituir o cigarro”, disse a cantora. Com o tempo, o maestro adquiriria um gosto especial pelos charutos.

Vargas conta que Jobim começou fumando charutos nacionais, como o Panatela Ouro da Suerdieck.

Logo aprendeu a apreciar também os puros cubanos, que conseguia com certa dificuldade na época em que as importações eram praticamente inviáveis. Chegou a recorrer ao amigo Chico Buarque, que lhe trouxe algumas caixas direto de Cuba, na volta de uma de suas viagens à ilha.

A predileção de Tom recaía nas vitolas e marcas clássicas, o que não chega a surpreender. O Partagas Lusitania era um destaque, bem como o Romeo y Julieta Churchill e os Montecristo números 1 e 4. Mas ele não dispensava um bom corona das duas primeiras marcas citadas.

Quase sempre Tom levava um charuto no bolso, em suas andanças, como se vê  no depoimento da jornalista Ana Carmen Foschini: “Viajei para Campos do Jordão para a abertura de um festival de inverno, especialmente para conversar com Tom Jobim sobre a criação da Universidade Livre de Música, da qual ele era patrono. Nossa conversa acabou sendo rápida, no camarim do Auditório Cláudio Santoro. Tom embrulhado em cachecol e na nuvem de fumaça do charuto. Uma grande figura.”



Na Plataforma, casa carioca tradicional, um dos sócios, Alberico Campana, iniciou Tom no charuto toscano. Sempre que vinha da Itália trazia uma caixa para o músico. “Após a refeição ele se deliciava com um charuto, acompanhado do licor Cointreau, e até brincava com o anel, colocando-o em meu dedo”, conta Miúcha, que lembra ter sido Tom um fumante metódico, caprichoso: “Ele abria o charuto com muito cuidado. Tinha um desses cortadores especiais, apreciava muito os acessórios. Uma das imagens que guardo do Tom, muito forte, é ele com o charuto no bolso, para fumar após o almoço.”



A despedida


Com um tributo à sua obra, no Free Jazz Festival, de que participaram Herbie Hancock, Shirley Horn, Ron Carter, Joe Henderson, o cubano Gonzalo Rubalcaba, Jon Hendricks, Gal Costa e Oscar Castro Neves, e um novo disco, Tom encerrou a temporada de 1993. O disco, “Antonio Brasileiro”, com participações de Dorival Caymmi e Sting, também seria o último de sua carreira.

Na capa, ele acende um charuto, seu derradeiro prazer de fumante. No encarte, Ipanema resplandece, com o Morro Dois Irmãos ao fundo, tendo ao lado uma epígrafe de Antoine de Saint-Exupéry ("L'essentiel est invisible. On ne voit qu'avec le cœur"), complementada, no outro extremo do encarte, por uma citação de Guimarães Rosa: "O resto era o calado das pedras, das plantas bravas que crescem tão demorosas, e do céu e do chão, em seus lugares".

No miolo, uma série de imagens que evocam nossa exuberante natureza (elementos de flora, fauna, indígenas) e fotos de objetos pessoais e emblemáticos do maestro: seu chapéu Panamá, óculos, piano, lente de aumento, dicionário - a iconografia justa (projeto gráfico de Ana Jobim e Marcos Martins, fotos de Ana Jobim) para um CD que pretendia ser um perfil do maestro, uma repassada em sua obra, e tornou-se, inconscientemente, uma despedida. O disco “Antonio Brasileiro” só seria lançado em novembro de 1994. Até lá, Tom faria mais três shows.

Em duas noites seguidas de abril, reapareceu no Carnegie Hall: na primeira, para comemorar os 50 anos da Verve, na companhia de Pat Metheny, Joe Henderson, Charles Haden e Al Foster; na segunda, para promover a Rainforest Foundation, ao lado de Sting, Elton John e Luciano Pavarotti. Em maio, daria, em Jerusalém, seu último espetáculo, passando os quatro meses seguintes no Rio, onde preferiu gravar a faixa (“Fly Me To the Moon”) que lhe coube no segundo disco de duetos de Frank Sinatra, “Duets II”. Em 15 de setembro, três dias após gravar sua parte no dueto com Sinatra, viajou até Nova York para submeter-se a uma angioplastia e avaliar o grau de comprometimento de seu sistema circulatório.

Num dos exames a que Tom se submeteu detectaram um tumor maligno na bexiga - e uma cirurgia foi marcada para o dia 6 de dezembro, no Mount Sinai Medical Center. No dia 8, enquanto convalescia da cirurgia, sofreu uma parada cardíaca, às 8h. A segunda, duas horas depois, provocada por uma embolia pulmonar, lhe seria fatal, aos 67 anos.

“A morte de Tom Jobim não foi apenas a queda de uma árvore, foi a derrubada de uma floresta”, escreveu Arnaldo Jabor, resumindo à perfeição um sentimento universal. Resta para nós a beleza de suas canções, acompanhamento perfeito para os puros que o grande maestro tanto apreciava.



A anti-homenagem



Homenageado pela cidade do Rio de Janeiro, que soube cantar como poucos, Tom Jobim virou nome de aeroporto. Mas a foto do maestro saiu do local em janeiro de 2008, abrindo assim, digamos, a temporada de homenagens ao grande músico com um ato de furibunda corretice política.

A Superintendência de Gestão Operacional da Infraero retirou um pôster das dependências do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro (Aeroporto Antônio Carlos Jobim), onde o maestro aparecia fumando charuto. Segundo seus opositores, a associação da imagem de Tom Jobim com o fumo não combina com a política nacional de saúde pública para controlar o consumo do tabaco.  A Presidência da Infraero providenciou a retirada da imagem. Sobrou para o coitado do Tom...



Celso Nogueira   Celso Nogueira - tradutor, editor e redator especializado em alimentos e bebidas, trabalha com marketing de relacionamento em uma multinacional e faz traduções literárias e gastronômicas, além de realizar palestras e conduzir degustações sobre gastronomia, cachaça e charutos. Foi um dos fundadores e atuou como diretor da confraria Cigar Club.

 

 
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