Simulacra - O Tabaco num Futuro Nebuloso
Por Celso Nogueira

Salvo erro, Philip K. Dick assina o único livro de ficção científica em que os charutos aparecem com destaque: The Simulacra (1964), traduzido para o português como O Tempo dos Simulacros, edição da Livros do Brasil (Lisboa). Eis aí rara oportunidade para acender um bom charuto enquanto se viaja por um futuro que inclui ostensivamente charutos.










A tradução é de Portugal, mas fluentes em inglês podem adquirir o romance pela Amazon UK/USA, ou pesquisar passagens no livro online, clicando em Search Inside This Book, nos endereços:

http://www.amazon.co.uk/gp/ product/0575074604/ref= sib_rdr_dp


http://www.amazon.com/Simulacra-Philip-K-Dick/dp/productdescription/0375719261



Para uma deliciosa leitura, a sugestão do site Charutos e Bebidas, que já apresentou em primeira mão outras obras literárias importantes nas quais o charuto aparece com destaque, é harmonizar Simulacra com charutos longos, que pedem paciência e tempo livre, como o recém-lançado doble corona Vera Cruz, ou clássicos do nível do Montecristo A e Partagas Lusitania.

Em Simulacra, num futuro próximo o presidente dos Estados Unidos da América e da Europa (na verdade, Alemanha) será um andróide manipulado pela esposa, na verdade uma atriz que representa o papel de primeira-dama, na verdade um joguete nas mãos de um colegiado mais discreto que diretoria de banco brasileiro, que na verdade... obviamente nada é de verdade neste futuro sombrio em que pianistas tocam sem tocar o teclado e são gravados por máquinas-organismos.



O cenário não é incomum nas obras do gênero: o futuro após uma guerra nuclear em que pululam mutantes, viagens no tempo, organismos mecânicos, radiação, neonazismo, manipulação do povo por meio de artifícios tecnológicos e psicologia de massa fascista. Enfim, o inferno distópico de praxe, a não ser pelos táxis automáticos que funcionam que é uma beleza. Vale lembrar que PKD foi pioneiro nesta abordagem, depois tão banalizada.



Cigarro e Charuto

Destaca-se em Simulacra um detalhe irônico. Como o cigarro faz mal à saúde, é uma droga proibida nos USEA (United States of Europe and America). Em função disso, os fumantes se fartam de fumar charutos feitos na Flórida e nas Filipinas. Não há menção a Cuba no livro (nem ao Brasil), mas sobram citações de tipos de tabaco, bitolas que só existirão no futuro e outros aspectos.

São quinze referências a charutos no decorrer da narrativa, segundo a edição da Gollancz (New Edition 9 Sep 2004). Nelas, o autor fala em charutos suaves da Flórida, cita o Bela King, um charuto filipino feito à mão com tabaco tipo Isabela. Esta variedade de tabaco para charuto existe, e o nome deriva da localidade onde é plantado, nas Filipinas. Juntamente com Cagayan, Quirino, Nueva Ecija, Nueva Vizcaya, Zamboanga del Sur, Misamis Oriental e
Leyte, a área de Isabela foi destinada ao plantio de tabaco para charuto pelo decreto presidencial 628, de 1974, que estabeleceu o zoneamento da planta nas Filipinas.

Adiante, PKD menciona que um personagem, McRae, acende um charuto “americano, e não da variedade alemã”. Outros citados são Alta Camina, Dutch Masters, Upmann e “Optimo extra mild, Pure Florida leaf”, uma marca tradicional da Flórida, com charutos maquinados produzidos em Jacksonville desde 1898 (pag. 110). O autor mistura marcas conhecidas (Upmann, Optimo) com inexistentes ou extintas (Bela King e Alta Camina).



Dutch Masters é uma marca tradicional norte-americana, no mercado desde 1911. Tem uma linha grande de charutos e cigarrilhas maquinados, com capa de folha de fumo verdadeira, e não de papel, como concorrentes de categoria inferior. Alguns são saborizados, nas versões mel, conhaque, baunilha e outras abominações. Pertence à Altadis, gigante do setor.

Aparece no romance até um charuto de imitação de tabaco, o equivalente futurista dos short fillers maquinados de hoje (pag. 140): " Alone, he sat silently at his desk, smoking an ersatz-tobacco cigar and pondering." No livro, os charutos ecoam o tema principal, que é a criação de simulacros para substituir a realidade e o quanto é difícil sua percepção. Ou o quanto é fácil iludir as pessoas, impingindo imitações no lugar de elementos reais.

No caso dos charutos, temos uma gradação que vai do inegavelmente verdadeiro, ou seja, premium enrolado à mão com folhas inteiras de tabaco específico para charutos, até o ersatz, feito com tabaco sintético. Vários citados estão no tênue limite entre um tipo e outro. É o caso dos produtos norte-americanos feitos de fumo picado com capa de papel imitando tabaco, que não são nem deixam de ser charutos.



Ficção Científica

Embora a ficção científica seja considerada um gênero menor, abriga obras importantes da literatura. Na modernidade, destacam-se mestres como Anthony Burgess, escritor, compositor, charuteiro, autor de A Laranja Mecânica e Philip K. Dick. Este último criou um universo sufocante de alta plasticidade em que mecanismos e organismos se misturam em meio à poluição, catástrofe nuclear e dificuldades diversas. Kurt Vonnegut Jr., outro romancista que transcendeu a ficção científica, escreveu uma das obras preferidas de Dick, Player Piano. Os dois autores compartilham o uso da especulação sobre o futuro para explorar a relação entre autor e personagem, bem como as tragédias de indivíduos em realidades que escapam ao seu controle, numa abordagem que projeta aos séculos vindouros elementos da tragédia grega.

Pouco sucesso

A obra de Philip K. Dick, após seu sucesso delimitado ao gênero, nos anos 1950 e 60, voltou a atrair leitores e a receber elogios da crítica pela popularidade dos filmes derivados de seus contos e novelas: Blade Runner – O Caçador de Andróides (baseado no conto Do Androids Dream of Electric Sheep?), O Vingador do Futuro (baseado em We Can Remember It for You Wholesale), de Paul Verhoeven, com Arnold Schwarzenegger e, mais recentemente, Minority Report – A Nova Lei, de Steven Spielberg, com Tom Cruise. Recentemente estreou O Vidente (Next, de Lee Tamahori, com Nicolas Cage), baseado no conto The Golden Man.

Poucos escritores viram tantas obras se transformarem em sucesso de bilheteria e crítica. Quer dizer, Dick praticamente não viu isso, morreu em 1982, quando apenas começava seu retorno literário e as adaptações. Mas deixou uma forte impressão: “Todos os que se perdem nas interminavelmente múltiplas realidades do mundo moderno, lembrem-se: Philip K. Dick chegou lá primeiro”, afirmou Terry Gilliam.



Philip Kendred Dick - 1928-1982

O escritor nasceu em Chicago, mas passou a maior parte da vida na Califórnia. Freqüentou a universidade de Berkeley, teve uma loja de discos e um programa de música clássica na rádio local. Publicou mais de 110 contos num período de 30 anos, começando com a venda de Roog a Anthony Boucher, da The Magazine of Fantasy and Science Fiction, em 1952, além de novelas, romances e ensaios.

Segundo a Wikipedia, por ter mantido relações com o Partido Comunista norte-americano, ele foi alvo de investigações por parte do FBI e dos serviços secretos da Força Aérea dos EUA. A visão quase paranóica da realidade que Dick demonstrou em muitos dos seus trabalhos não seria portanto de todo infundada.

Inspirando-se em idéias do Budismo, Cabalismo, Gnosticismo e outras doutrinas, e combinando-as com certos aspectos das novas crenças na parapsicologia, extra-terrestres e percepção extra-sensorial, o autor criou mundos alternativos nos quais acabou eventualmente por julgar viver. Consumindo drogas em excesso, alegou ter sido contatado em 1974 por uma inteligência alienígena.

Fontes: Amazon, Wikipedia, Dallas News, site oficial do autor.

  Por Celso Nogueira - tradutor, editor e redator especializado em alimentos e bebidas, trabalha com marketing de relacionamento em uma multinacional e faz traduções literárias e gastronômicas, além de realizar palestras e conduzir degustações sobre gastronomia, cachaça e charutos. Foi um dos fundadores e atuou como diretor da confraria Cigar Club.

 

 
  Newsletter
Cadastre-se e receba nossas
novidades em seu email.
Nome:
Email:


 
     
  Charutos Personalizados
Comemore o nascimento de seu filho, casamento ou uma conquista de sua empresa com charutos personalizados.



 
     
   Telefones:  (11) 5096-2494 / 5041-1596
  © Copyright Charutos e Bebidas. Todos os direitos reservados.
  Qualquer reprodução deste material deverá ser feita com autorização.