O Sacolão é dez
Por Celso Nogueira

Os sacolões estouraram em São Paulo. Pouca gente se aventura no Mercadão, se levarmos em conta a população total da cidade. Muita gente ficou de saco cheio dos legumes, frutas e verduras dos supermercados: preço alto, sabor baixo. Os sacolões eram no início uma alternativa barata que foi conquistando um público de classe média. Hoje oferecem produtos de qualidade, bons preços e diversidade, mantendo o espírito original que inspirou seu nome singelo.

Os sacolões se espalharam por São Paulo, adaptados aos costumes da região em que se encontram. Recentemente, em Pinheiros, à rua Mateus Grou, abriu um chamado Quitanda, descolado retrô como os habitantes do bairro, compacto e bem servido, com direito a padaria chic, adega bem abastecida e degustação de frutas, para que todos experimentem e comprovem suas vantagens. Ali perto, na Vila Madalena, o lendário sacolão inclui um bom sushi bar e se tornou ponto de encontro dos boêmios do bairro.

No Sacolão Imigrantes, na Saúde (av. prof. Abraão de Morais, 1500, ao lado do McDonald’s – 5583-2729) há um salão principal, com vegetais, e várias lojas - açougue, peixaria, alimentos orientais, queijos, frios e massas, congelados, café e até um sushi bar, pois na região tem muitos orientais. Não falta nem telão para ver alguma transmissão esportiva.

Logo na entrada, uma pastelaria apenas razoável - a massa do pastel não é lá essas coisas. Na parte interna, após o simpático tanquinho de carpas colorias, uma peixaria no nível exigido pelos nisseis e sanseis que a frequentam, a Hedama Pescados (6837-2000). Sérgio e Cristina Tomimura comandam pessoalmente uma equipe de peixeiros competentes, capazes de limpar e cortar qualquer peixe de acordo com a preferência dos clientes. Ali os peixes e frutos do mar têm dois nomes, muitas vezes. Suzuki é robalo, buri é olhete, ebi é camarão, atum pode ser toro ou maguro, e assim por diante.

Quem preferir churrasco ou carnes em geral tem o açougue Bottini (Alexandre, Marcelo ou Ricardo – Telefone 2577-2145) como opção, na loja vizinha. Além de cortes especiais para churrasco embalados à vácuo, espetinhos, ótimas almôndegas temperadas, carnes suínas e frangos. Em seguida, a Galeria do Queijo parece uma banca do Mercadão em miniatura, com frios, queijos variados, massas frescas, azeites e conservas. Ali se pode comprar o melhor requeijão de copo, da marca Aviação e encomendar tábuas de queijos e frios para festas.

A importadora Beale (beale.com.br – Telefone (11) 2275-0682) impressiona pela boa escolha dos vinhos, diversificados em termos de preço, variedade e país produtor. Além de bebidas, oferece ingredientes especiais como arroz basmati, azeite extravirgem, chocolates suíços, massas de grano duro, condimentos como açafrão e mostarda. Destaque para o atendimento competente, com pessoal qualificado capaz de orientar o interessado na compra de um vinho ou condimento.

Os fregueses do Sacolão Imigrantes contam ainda com lojas de presentes, flores, um sushi bar, o Hiro Sushi, congelados e produtos orientais (Enman). O mix de lojas e produtos varia muito conforme a localização do sacolão, sempre adaptado às exigências da população vizinha. Neste caso, os orientais da Saúde, Jabaquara e Vila Mariana influem bastante.

Para as festas de final de ano as diversas lojas aceitam encomendas de carnes nobres, inclusive cordeiro e pernil, vinhos e espumantes em caixas, com desconto, produtos típicos como frutas secas e nozes etc.

Nos bairros mais populares o sacolão substitui ou complementa a feira livre, oferecendo mais produtos regionais, com destaque para artigos do Nordeste. Na verdade, o sacolão atual é uma feira livre que funciona todos os dias, em local fechado, com estacionamento e outras mordomias. Talvez venha a substituir algumas feiras que não se modernizaram, como já fizeram com as quitandas de bairro, cada vez mais raras. Pelo menos fazem isso oferecendo qualidade.

Boutiques gastronômicas estão fora do orçamento da maioria das pessoas. Mas ainda há uma cultura culinária do trivial, o pilar que sustenta a viga-mestra da cozinha paulistana: bons ingredientes a preços acessíveis. É uma coisa meio na contramão, pois a tendência é radicalizar nas pontas. Quem tem muito dinheiro poderá escolher comida cara e boa ou cara e ruim. Da classe média para baixo restará o ramerrão dos supermercados, com produtos apetitosos sem sabor, rótulos sem conteúdo no caso dos industrializados. Comestíveis no lugar de comida.

Mas, enquanto restarem os sacolões - felizmente um sucesso - haverá uma base sólida de ingredientes, que são o sustentáculo de uma população relevante, com acesso a informação e poder aquisitivo considerável, e portanto ansiosa para se educar em termos de paladar. Se a classe média só tiver lixo para comprar, prevalecerá a mediocridade e a picaretagem, que se alimenta da ignorância. Havendo oportunidade, manteremos um trivial de qualidade herdado das principais culturas inspiradoras da culinária paulistana - caipira, portuguesa, africana, italiana, árabe, judaica, japonesa, alemã, francesa, chinesa, espanhola etc. Claro, isso vale também, com as devidas diferenças, para outras cidades. No Rio de Janeiro, por exemplo, a rede Hortifruti (hortifruti.com.br) tem diversas lojas com as características de um bom sacolão e, segundo cariocas e fluminenses, com seção de vinhos bem montada.



Celso Nogueira   Celso Nogueira - tradutor, editor e redator especializado em alimentos e bebidas, trabalha com marketing de relacionamento em uma multinacional e faz traduções literárias e gastronômicas, além de realizar palestras e conduzir degustações sobre gastronomia, cachaça e charutos. Foi um dos fundadores e atuou como diretor da confraria Cigar Club.

 

 
     
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