Pubs e cafés enfumaçados
por Celso Nogueira



PartagasO ambiente clássico dos pubs ingleses e cafés franceses compartilha uma característica, a fumaça. Ou compartilhava. Nos dois casos a lei proibiu fumar lá dentro, como proíbe beber lá fora.

Charutos, cachimbos e cigarros, presenças inevitáveis nos pubs britânicos, ao lado do gim, que todo mundo bebe e quase ninguém comenta, e das cervejas de tipos variados – ale, bitter, lager, stout – completaram um ano de ausência em julho de 2008: uma lei proibiu fumar nos pubs ingleses em 2007. Taí uma data que poucos frequentadores de bares comemoram.

Afinal, segundo o escritor Vargas Llosa, que já foi anarquista e hoje é liberal, nesta idade das trevas light em que vivemos, liberdade só para fazer o que é bom para nós não tem graça. Quanto mais se o conceito de bom for definido por outros, interferindo em nossa vida particular.

PartagasDaqui a pouco vão querer proibir até a manteiga do couvert. O bacon no breakfast inglês. O arroz com suã caipira. Lançar uma bomba atômica na Escócia (não tem outro jeito de acabar com o whisky por lá, eles vestiriam a sainha e morreriam combatendo, dos Highlands à ilha de Islay, antes de aceitar trocar whisky por chá).

Uma pesquisa do Evening Telegraph com cinquenta bares mostrou que três em cada cinco donos de pub acham que a proibição de fumar prejudicou os negócios: “O Cherry Tree é o pub mais antigo de Kettering, mas não deve durar muito.”

Dennis Willmott, landlord (dono) do The Bell Inn, em Finedon, disse: "Aposto que daqui a três anos será muita sorte encontrar pubs em vilarejos.”

Por outro lado, os hábitos dos frequentadores de pubs mudaram. Os estabelecimentos passaram a vender mais comida. Os pubs, antros malvistos de prazeres, podem estar a caminho de se tornarem cada vez mais bonitinhos, comportados e familiares. É o que os ingleses revoltados chamam de “gastro pubs”. Neles ninguém fuma, mesmo...

PartagasMas será que a proibição de fumar nos pubs ameaça somente o faturamento desses bares? Para A. N. Wilson pode ser o fim da literatura inglesa, como se pode ver a seguir. O  texto original está em http://www.telegraph.co.uk/opinion/main.jhtml?xml=
/opinion/2007/08/20/do2005.xml



Os pubs e a literatura inglesa

O que os seguintes escritores têm em comum: Oscar Wilde, Henry James, Joseph Conrad, Virginia Woolf, T S Eliot, W B Yeats, Charles Dickens, William Makepeace Thackeray, Evelyn Waugh, Philip Larkin e Kingsley Amis ?

A resposta, claro, é que eles, se voltassem à vida na Grã-Bretanha de Gordon Brown e quisessem ir até um pub, clube, restaurante ou café, não poderiam indulgir no hábito que os acompanhou durante a fase mais criativa de suas vidas.

No momento em que acendessem seu charuto favorito, puxassem o cigarro ou pusessem o cachimbo na boca, seriam imediatamente multados.

PartagasSim, havia livros na Grã-Bretanha antes da chegada do tabaco. Mas seria apenas por acaso que a época de sir Walter Raleigh (1552-1618), responsável pela introdução do tabaco na Inglaterra, tenha sido também marcada pelo início real da grande literatura inglesa? Milton e Bem Jonson, dois fumantes, evitaram que a gloriosa era elizabetana fosse fogo de palha.

Pesquisei e arranquei os cabelos tentando achar um único não-fumante entre os grandes poetas e romancistas ingleses, do século XVII ao XX. Talvez Keats tenha deixado o cachimbo de lado quando ficou tuberculoso.

No mais, de Swift e Pope a Cowper e Wordsworth, de Byron a Charles Lamb, todos eles fumavam.

Tennyson, que só parava de fumar para comer e dormir, descreve em sua correspondência que estava no pub com um amigo, sem fazer nada, exceto “lançar anéis de fumaça um no outro”.

Hoje em dia esta inofensiva brincadeira custaria ao bar mil e duzentas libras, e mais seiscentas a Tennyson, enquanto não-fumantes indignados nas mesas vizinhas, em vez de desfrutar a oportunidade de ver o maior poeta vitoriano, reclamariam da fumaça que, em sua opinião, lhes causaria danos.

Eu não me importo se a pessoa fuma ou não. Faço isso em fases, depois paro – não por razões de saúde, mas simplesmente para mostrar a mim mesmo que posso parar.

Férias de verão, porém, são o momento natural para acender um cigarro esporádico, sentado num bar com amigos, ou resolvendo palavras-cruzadas.

A Cornualha, de onde escrevo, mudou completamente desde a Proibição. Minha mulher e eu encontramos pubs adoráveis praticamente vazios ou, pior, cheio de crianças de oito anos de classe média, trepando nas banquetas, tomando ruidosamente refrigerante de canudinho, enquanto proclamam suas opiniões sobre o aquecimento global no tom agudo de Fulham ou Hampstead.



Os veteranos fumantes de antigamente continuarão fumando, mas em vez de se divertirem na companhia dos outros sentarão melancólicos em suas poltronas domésticas, abrirão uma cerveja e verão tevê. Não existe substituto para o prazer (embora seja por vezes um prazer tedoso – um oxímoro que todos os frequentadores de bar considerarão válido) de conviver com pessoas reais.

Sentado com meu drinque num desses bares vazios, minha mente se voltou aos grandes fumantes do passado – como CS Lewis, que fumava sessenta cigarros por dia, entre as cachimbadas com seus amigos Charles Williams (cigarro) e Tolkien (cachimbo); como Thomas Carlyle, cuja esposa o obrigava a fumar na cozinha da casa em Cheyne Row, mas que seria inimaginável sem o tabaco, até Robert Browning, que rapidamente se adaptou à onda do cigarro, e John Cowper Powys, que fumou cigarro e escreveu romances fascinantes até os noventa e tantos anos.

Esta imensa nuvem de testemunhas da nicotina me levou a duas questões. Uma é simples – por que as pessoas na Inglaterra aceitaram uma proibição draconiana de seus prazeres pessoais?

Pelo que sei, David Hockney, entre as figuras públicas, vociferou sozinho a condenação da lei autoritária e anti-inglesa. Os ditos partidos de oposição, claro, se mostraram ansiosos para apaziguar os fanáticos pela saúde, pois eles representam uma fatia do eleitorado, e os políticos não ousam dizer: “Chega! Vamos deixar que os homens e mulheres da Inglaterra, bem como os donos de bares, decidam quem pode fumar, e onde, e não um ridículo ministro.”

De todo modo, outra idéia me ocorre, muito triste. Este ataque contra uma liberdade básica, que passou seu protestos significativos, pode marcar o final não apenas do fumo nos bares, mas da própria literatura.

A heróica Beryl Bainbridge segue fumando pela Inglaterra. Mas haverá, nos anos vindouros, quem acompanhe seus passos heróicos ?



Celso Nogueira   Celso Nogueira - Celso Nogueira - Tradutor literário, editor e colunista especializado em alimentos e bebidas, realiza palestras e conduz degustações sobre gastronomia, cachaça e charutos. Foi um dos fundadores e atuou como diretor da confraria Cigar Club.

 

 
  Newsletter
Cadastre-se e receba nossas
novidades em seu email.
Nome:
Email:


 
     
  Charutos Personalizados
Comemore o nascimento de seu filho, casamento ou uma conquista de sua empresa com charutos personalizados.



 
     
   Telefones:  (11) 5096-2494 / 5041-1596
  © Copyright Charutos e Bebidas. Todos os direitos reservados.
  Qualquer reprodução deste material deverá ser feita com autorização.