O filho do charuteiro
Por Celso Nogueira

clique e saiba maisFilho de dono de tabacaria, neto de um fabricante de charutos, Henry Louis Mencken consagrou-se como um dos jornalistas norte-americanos mais importantes da primeira metade do século vinte. Suas tiradas ferinas são lidas com prazer até hoje.

A família Mencken fugiu na Alemanha durante o turbulento êxodo de 1848, instalando-se em Baltimore, Maryland, onde o pai fundou a Aug. Mencken & Bro, fábrica de charutos instalada no número 368 da Baltimore Street, famosa pelas marcas Havana Rose, La Cubana e El Cabinet, feitas com fumo cubano de primeiríssima. Havia, porém, charutos populares de tabaco norte-americano entre as quinze outras opções de bitola e marca. Durante muitos anos, a deles foi a fábrica mais importante da região.

Seu filho August Mencken encarregou-se de dar continuidade à tradição tabaqueira da família, com enorme sucesso. Mas foi o irmão Henry quem conquistou um lugar na história.

Depois de trabalhar na fábrica do pai por três anos, conseguiu se tornar jornalista. Ele começou enrolando charutos, aos dezesseis anos. Para os seus, usava as melhores folhas importadas de Cuba para miolo e capote, e Sumatra para as capas. A mamata acabou quando virou jornalista. A partir de sua saída da fábrica passou a encomendar 300 charutos por mês, em maços de 50, sem anilha.

Por conta de uma alergia, foi proibido de fumar pelos médicos, e declarou: “Mas é impossível escrever qualquer coisa que preste mascando chiclete”, e voltou a fumar ou mastigar charutos, como dizia o irmão, zombando de seu costume de mordiscar a ponta dos puros.

Enquanto repórter, Mencken acompanhou todos os grandes eventos da primeira metade do século, e seus relatos até hoje são lidos pela qualidade do texto, humor ferino e firmeza de opinião. Para ele, Washington não passava de “cem mil mancadas federais de aspones de quinta linha” (em tradução livre). Defendeu com veemência a liberdade de expressão e lutou contra a segregação racial e a Lei Seca. Defendeu também o voto feminino e o direito de fumar no bonde...

Além disso, como editor, colunista e filólogo, H. L. Mencken influenciou várias gerações de intelectuais. Pessoalmente, auxiliou muitos jovens a fazer carreira nas letras, como editor do American Mercury. Alguns se tornaram famosos na literatura norte-americana, como James M. Cain, autor de O Destino Bate à Sua Porta, Sinclair Lewis e F. Scott Fitzgerald.



Antes de morrer, Mencken deixou escrito seu Epitáfio, publicado na Smart Set de dezembro de 1921: “Se, após minha partida deste vale de lágrimas, você se lembrar de mim e quiser agradar meu espírito, perdoe um pecador e pisque o olho para uma moça bonita.”

Mas Mencken só viria a falecer em 1956. Ele nasceu em 1880, estudou na Politécnica de Baltimore (foi o melhor aluno de todos os tempos) e começou a carreira no Morning Herald. Em 1906 passou a fazer parte da equipe do Sun, de Baltimore, onde ficou até poucos anos antes de sua morte.

Entre seus livros destacam-se os três volumes de The American Language, um dos mais importantes tratados sobre o inglês nos Estados Unidos e A New Dictionary of Quotations, amplamente consultado até hoje. No Brasil temos o Livro dos Insultos de H. L. Mencken¸ seleção e tradução de Ruy Castro, para a Companhia das Letras.

 



Mencken, Cuba e Charuto

Sobre Cuba ele escreveu uma reportagem que retrata a ilha no início do século, durante (mais) uma revolução. Seu relato Banho de Sangue no Caribe (1917)não poderia ser mais atual, e do qual foram selecionados alguns trechos emblemáticos:

Nenhum repórter de minha geração, por mais genial que seja, pode ser considerado digno de polainas e bengala antes de cobrir um linchamento e uma revolução. O primeiro, por graça dos deuses, sempre perdi. Mas dei sorte com revoluções, embora tenha feito a cobertura de uma só, e ainda por cima acidentalmente. No ano de 1917 eu retornava da Primeira Guerra Mundial num navio espanhol que zarpara de La Coruña, na Espanha, dez dias antes, para tentar chegar a Havana. Quando estávamos no meio do labirinto das Bahamas chegou um telegrama da redação do Sun de Baltimore. Dizia, em resumo, que estourara uma revolução em Cuba, que a confusão era tamanha que ninguém ao norte do estreito da Flórida fazia idéia do que estava acontecendo, e que uma série de matérias sucintas e iluminadas descrevendo os envolvidos e suas atividades seria bem-vinda.

Respondi que o desejo de meus superiores era para mim uma ordem e mandei outro telegrama, para um amigo de Havana, o capitão Asmus Leonhard, superintendente da Munson Line, dizendo que o procuraria no instante em que o navio atracasse em Havana. O capitão Leonhard conhecia todo mundo que valia a pena na América Latina, e milhares de pessoas que não valiam nada. Suas avaliações se resumiam a no máximo três palavras. A resposta ao meu telegrama veio no estilo habitual. “Tá.”

O navio espanhol chegou finalmente a Havana, passou por El Morro, e o capitão Leonhard mandou um mulato jovem e esperto me buscar de lancha. O rapaz conseguiu que eu passasse direto pela alfândega. O capitão em pessoa me esperava na frente do Pasaje Hotel no Passeio do Prado, saboreando um prato de sopa de feijão enquanto fumava simultaneamente um Romeo y Julieta.

“A questão da revolução”, disse, “é simples. Menocal, que se considera conservador, é presidente. José Miguel Gómez, que era presidente e se considera liberal, quer voltar. Fim da história. José Miguel diz que Menocal foi reeleito no ano passado porque os militares afastaram os liberais dos locais de votação. Por outro lado, Menocal diz que José Miguel é um arrivista e devia ser expulso da ilha. Os dois têm razão.”

O capitão sugeriu conversar com Menocal primeiro, começar pela versão oficial. Em três minutos entrávamos no palácio, cheio de gente importante. Metade, militares de farda e espada. Metade, funcionários dos ministérios. De tempos em tempos outros oficiais desciam de automóveis e corriam para a sala da presidência.

O capitão Leonhard explicou que eram mensageiros do front, pois José Miguel lutava no interior e estava cercado na província de Santa Clara, onde esperavam capturá-lo logo.

Apesar da revolução em curso o capitão conseguiu em dez minutos uma entrevista com el presidente. Encontrei Sua Excelência de bom humor, calmo e amigável. Falava inglês fluente, sem reticências. José Miguel, explicou, era o diabo em forma humana e esperava provocar uma intervenção americana com sua traição, derrubando assim o atual governo, legítimo e impecavelmente virtuoso. Mas seus planos malignos seriam derrotados. O intrépido exército cubano, que jamais perdera uma guerra, ou mesmo uma única batalha, encurralara o traidor e em poucos dias o traria acorrentado para fazer companhia às lagartixas na fortaleza de La Cabaña enquanto esperava o pelotão de fuzilamento e tentava em vão fazer as pazes com Deus. Depois disso o presidente me expulsou dali com uma mesura, oferecendo porém um carro e secretário enquanto quisesse.

Eu já ia escrever a matéria, mas o capitão Leonhard me impediu. “Melhor ouvir primeiro os revolucionários.” Exclamei: “Os revolucionários! Pensei que estavam em Santa Clara, cercados pelo exército.”

“Alguns”, disse o capitão. “Outros não. Vamos de táxi.” Pegamos um táxi e seguimos por uma rua chamada Obispo. O capitão mandou parar na frente de um banco e desceu. “Vou esperar no banco”, disse. “Você sobe até a sala 309. Peça para falar com o Dr. X”, e sussurrou um nome. “Quem é o doutor X?” Sussurrei de volta. “Ele é o chefe da junta revolucionária”, respondeu o capitão. “Mencione meu nome, ele lhe contará tudo.”

Obedeci as ordens e logo estava falando com o doutor, um senhor idoso muito alto e magro, de barba e pele cor de cimento. O doutor, como el presidente, falava bem o inglês e parecia estar de ótimo humor. Tinha agentes de confiança no palácio, explicou, e sabia tudo que ocorria na embaixada americana. Recebia cópias carbono de todos os telegramas do front.

Os eventos eram extremamente favoráveis à causa das reformas. José Miguel, embora meio gordo para a batalha, era um gênio militar comparável a Joffre ou Hindenburg. Ou mesmo a Aníbal e Alexandre, e logo faria de palhaços os generais do exército. Quando a Menocal, ele era o diabo em forma humana e esperava provocar uma intervenção americana para defender seu regime corrupto e abominável.

Para mim aquilo pareceu inusitado, embora como repórter de jornal eu devesse ser incapaz de surpresas. Mas ali, no centro de Havana, à vista de milhares de pessoas, os revolucionários mantinham uma sala alugada para quartel-general, e seu chefe esbravejava livremente a um estranho que chegou lá perguntando por ele.

Perguntei ao doutor se não havia chance de seu esconderijo ser descoberto. “Não muita”, respondeu. “O exército nos caça, mas é tão estúpido que não representa risco. A polícia sabe onde estamos, mas acham que vamos ganhar e querem manter os empregos, no futuro. Da confiança o doutor passou à arrogância. “Em dez dias Menocal será julgado em La Cabaña. Fuzilá-lo? Não, sai muito caro. Os bancos de Nova York que o apóiam têm muito dinheiro. Vamos deixá-lo viver para que invistam no país.”

José Miguel acabou sendo capturado e chegou acorrentado a Havana.

Os assessores de imprensa do palácio anunciaram numa série de dez a quinze comunicados que ele seria julgado naquela mesma tarde e fuzilado ao nascer do sol do dia seguinte. Meus colegas jornalistas queriam ver a execução, e para sua surpresa a autorização foi concedida imediatamente. Chegaram uma hora antes das seis da manhã a La Cabanã, mas o sentinela não deixou ninguém entrar. Depois de meia hora de discussão um jovem oficial apareceu e disse que a execução fora adiada para o dia seguinte. Depois foi anunciado pelos assessores do palácio que Menocal comutara a pena para confinamento solitário num calabouço de Cayos de las Doce Leguas, na costa sul, onde os mosquitos eram maiores que as rãs, além do confisco de todas as propriedades do traidor e perda dos direitos civis, se é que os tinha.

Até isso, porém, era papo furado, pois o presidente Menocal, sendo um sujeito muito humano, reduziu a pena de José Miguel a cinquenta anos, depois a quinze, seis e dois. Acabou cancelando a condenação, substituída por uma multa de um milhão de dólares, depois duzentos e cinqüenta mil, e no final cinqüenta mil. Acreditava-se que José Miguel fosse imensamente rico, mas era exagero. Quando parti de Cuba ele ainda reclamava que a multa estava aciam de suas posses e que haviam confiscado seu iate. Quando morreu, em 1921, recuperara seu lugar entre os heróis do país. Vinte anos depois Menocal uniu-se a ele no Valhalla.



Celso Nogueira   Celso Nogueira - tradutor, editor e redator especializado em alimentos e bebidas, trabalha com marketing de relacionamento em uma multinacional e faz traduções literárias e gastronômicas, além de realizar palestras e conduzir degustações sobre gastronomia, cachaça e charutos. Foi um dos fundadores e atuou como diretor da confraria Cigar Club.

 

 
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