Mark Twain defendeu o direito de fumar
Mark Twain
Editor: Celso Nogueira
Trad. Silvana Siqueira

"Se não houver charutos no céu, não quero ir para lá.” Mark Twain


Mark Twain, ou Samuel Clemens, foi muito mais do que o romancista de aventuras que capturaram a imaginação de leitores da língua inglesa do mundo inteiro. Muitos jovens  estudantes do idioma tiveram em seus livros a primeira experiência literária marcante, após o doloroso embate inicial com as dificuldades do inglês. Twain destacou-se como romancista, ensaísta e cronista. Seus textos ajudaram a formar o que há de mais importante na mentalidade dominante nos Estados Unidos. Democrata, individualista ferrenho, destacou-se como paladino das causas liberais que projetaram as idéias de seu país para o mundo.


Famoso como apreciador de charutos, Mark Twain fuzila com ferina ironia os fumantes que dão mais importância à anilha do que ao conteúdo no texto Concerning Tobacco. Inédito em língua portuguesa.

 

Sobre o Tabaco
Mark Twain

Quando se trata de tabaco, existem várias superstições. A principal diz haver um critério que rege o assunto, mas na verdade isso não existe. A preferência de cada indivíduo é o seu critério, o único que vale para ele. Nem mesmo um congresso com todos os amantes de tabaco do mundo poderia eleger um padrão obrigatório a todos nós, ou pelo menos capaz de nos influenciar.

Outra superstição diz que as pessoas possuem seu próprio padrão. Mentira. Alguns podem até pensar que o têm, mas estão redondamente enganados. Um sujeito acha que consegue distinguir o que considera um bom charuto de um outro supostamente medonho, mas não consegue. Identifica a marca, imaginando que distingue o sabor. Se alguém lhe oferecer uma imitação barata que exiba a anilha de sua marca favorita ele fumará alegremente e jamais suspeitará da verdade.

Moleques de vinte e cinco anos que alardeiam sete anos de experiência querem me dizer qual charuto é bom e qual é ruim. Logo eu, que nunca aprendi a fumar, mas que sempre fumei; eu, que vim ao mundo pedindo fogo.

Ninguém pode me dizer o que é um bom charuto – para mim. Sou o único capaz de julgar. Pessoas que se intitulam conhecedoras afirmam que eu fumo os piores charutos do mundo. Costumam trazer seus próprios charutos quando vêm a minha casa.

Demonstram um terror imenso quando lhes ofereço um dos meus; inventam desculpas e saem para compromissos inexistentes quando se deparam com a minha caixa de charutos. Vejam só o que a superstição, apoiada na reputação de alguém, pode causar: convidei doze bons amigos para jantar certa noite. Um deles tem tanta fama de apreciar charutos caros e elegantes quanto eu tenho de gostar dos horríveis e baratos. Fui até sua casa antes e quando ninguém olhava peguei dois punhados de seus puros preferidos; charutos que custaram caro e ostentam anilhas vermelhas e douradas, símbolo de sua nobreza e alto custo. Removi as anilhas e coloquei-os na caixa dos meus charutos favoritos – a marca que todos já conhecem e apavora mais do que uma epidemia. Eles pegaram os charutos quando foram oferecidos após o jantar, acenderam de maneira um tanto arisca; pairava no ar um silêncio assustador, toda a alegria desapareceu assim que perceberam meus charutos favoritos circulando; não conseguiram manter as aparências por muito tempo, logo começaram a dar desculpas e foram saindo, um atrás do outro, numa ansiedade indecente; na manhã seguinte vi o resultado: charutos jogados pelo quintal inteiro, no caminho entre a porta da frente e o portão da rua. Todos, com exceção de um que ficou no prato do amigo de quem eu havia furtado o lote. Uma ou duas baforadas foi o máximo que suportou. Ele me disse depois que algum dia eu ainda levaria um tiro por oferecer às pessoas aquele tipo de charuto.

Se tenho certeza do meu critério? Perfeitamente, sim, sem dúvida – a menos que alguém me engane trocando as anilhas dos charutos; não há dúvida de que eu sou como os outros: conheço o que fumo pela marca e não pelo sabor. De qualquer maneira, meu critério é bastante abrangente e cobre um território muito amplo. Para mim, quase todos os charutos que ninguém gosta são bons e quase todos os charutos que todos gostam são ruins. Praticamente qualquer charuto serve, com exceção dos cubanos. As pessoas pensam que me magoam quando vêm a minha casa trazendo seguro de vida – quero dizer, com seus próprios charutos no bolso. Enganam-se: faço a mesma coisa.
Quando vou a um lugar perigoso – ou seja, na casa dos ricos onde, segundo a ordem natural das coisas, haverá apenas charutos super premium, envoltos em vermelho e dourado, acomodados no umidor de madeira de lei equipado com umidificador, charutos que produzem uma cinza escura pavorosa, carburam torto e soltam um fedor estranho, esquentando até queimar nossos dedos, com cheiro cada vez mais forte, infame e insuportável, até chegar ao pouquinho de tabaco bom que puseram no final, o sujeito que fuma o tal charuto fica elogiando o maldito tempo todo, enfatizando a fortuna que pagou – sim, quando vou a um lugar perigoso desses eu me defendo como posso, com charutos de vinte e sete centavos de dólar o maço, e sobrevivo para ver minha família novamente. Eu posso fingir que vou acender o charuto da anilha vermelha, mas é apenas por cortesia; eu o escondo no bolso para dar aos pobres, conheço muitos necessitados, e acendo um dos meus, e enquanto ele elogia, eu o acompanho, mas quando diz que custam quarenta e cinco centavos de dólar cada um eu não falo nada, pois só eu sei a verdade.


Contudo, para ser sincero, meu gosto é tão honesto que eu nunca vi um charuto que realmente não pudesse fumar, exceto os tais que custam um dólar cada. Já os examinei e sei que são feitos de pelo de cachorro, e nem é pelo de cachorro do bom.
Passei ótimos momentos na Europa, por todo o continente podemos encontrar charutos locais que nem o mais rude jornaleiro de Nova York fumaria. Levei alguns charutos comigo da última vez que fui para lá.  Não precisaria fazer isso de novo. Na Itália, assim como na França, o governo é o único que pode traficar fumo. A Itália tem três ou quatro marcas nacionais: o Minghetti, o Trabuco, o Virginia e outro bastante grosseiro que é uma modificação do Virginia. Os Minghettis são largos e agradáveis, e custam três dólares e sessenta centavos o cento; posso fumar os cem em sete dias e apreciar cada um deles. Os Trabucos também me agradam. Não me lembro do preço. Entretanto, é preciso se acostumar a gostar do Virginia, é um gosto adquirido. Parece um rabo de rato, mas fumá-lo não é tão ruim assim. Vem com um canudo dentro; você o retira e a fumaça passa, caso contrário não tem como puxar, assim como não é possível fumar um prego. Alguns preferem o prego. De qualquer forma, gosto de todos os charutos franceses, suíços, alemães e italianos, e nunca me preocupei em perguntar do que são feitos, provavelmente ninguém saberia dizer, mesmo. Há uma marca de tabaco europeu da qual eu gosto. É usada pelos camponeses italianos. Solto, seco e negro, parece chá moído. Quando aceso ele se expande, e vai subindo pelo fornilho do cachimbo e subitamente  cai em cima da roupa. O tabaco é barato, mas eleva o valor do seguro de vida. Como afirmei no início, o sabor do tabaco é uma questão de superstição. Não há regras – nenhum critério real. A preferência de cada um é o seu critério, o único que deve aceitar, o único em que deve se basear.


 

 

 

 
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