Borbulhas antecipam alegrias

Consta que certos vinhos se prestam a acompanhar momentos de reflexão e solitude. Não são os espumantes, cujas borbulhas sobem pelo líquido gelado falando em festejar com.

Cada um festeja como pode ou quer. Um casamento teso terá uma bebida gaseificada artificialmente, feita de suco de maçã, uva ou abacaxi, com um pouco de álcool de cana. Da champagne carrega apenas uma vaga semelhança na garrafa. Mas não importa, feliz de quem tem o que celebrar e com quem o fazer. Do mesmo jeito, inundar convidados de champagne Veuve Clicquot gelada revela generosidade e alma quente.

No meio do caminho tinha uma pedra, o espumante nacional de qualidade duvidosa, cujo domínio felizmente ficou para trás, assim como os abomináveis lambruscos vão perdendo a vez no gosto popular. Hoje podemos desfrutar de ótimos espumantes gaúchos a preços acessíveis, ao lado de proseccos, franciacortas, astis, cavas e vins mousseux, como os Crémants e Blanquettes de Limoux. Mas champagne não tem rival.

Sua história abençoada começou com um monge beneditino, Dom Pérignon, encarregado da adega da abadia de Hautvillers, no século XVII. Pena que aqui em São Paulo, no mosteiro de São Bento, eles só façam uns bolinhos. O tal monge teria descoberto um modo de controlar a segunda fermentação, que ocorre dentro da garrafa, conquistando assim a imortalidade nos rótulos da marca que leva seu nome.

Outro monge da mesma época, Ruinart, também acabou num rótulo de garrafa.

A região de Champagne, setentrional, apresenta combinação de clima e solo adequada ao plantio das uvas Pinot Noir, Chardonnay e Meunier, as únicas que produzem o verdadeiro champagne ou a verdadeira champagne, como cada um quiser, pois o termo tem dois gêneros em português. A champagne pode ser feita de vinhos de anos diferentes ou, quando ocorre uma safra excepcional, apenas com os fermentados daquele ano. Assim leva o nome de millésime. Por isso muitas champagnes não ostentam no rótulo uma data, ao contrário do que ocorre com outros vinhos.

A diferença entre o método champenois, usado na fabricação da champagne, e o charmat, é a segunda fermentação na própria garrafa, típica do método champenois. No charmat a segunda fermentação ocorre em grandes recipientes. Há espumantes de boa qualidade elaborados conforme o método clássico, como algumas cavas catalãs e até nacionais.

Bem mais importante do que conhecer detalhes da fabricação, para quem se interessa em celebrar a chegada do novo ano em grande estilo, é descobrir qual a bebida ideal em termos de equilíbrio preço/qualidade. Aos despreocupados com o bolso há uma incrível variedade de champagnes. Destacam-se pela fama e qualidade as marcas Krug, Veuve Clicquot, Lanson, Moët & Chandon, Piper-Heidesieck, Louis Roederer, Mumm e Taittinger.




As classificações

Podemos ter seis classificações conforme o teor do açúcar adicionado para a segunda fermentação: Doux (Doce), Demi-Sec (Meio-seco), Sec (Seco), Extra-Sec (Extra-seco), Brut (Bruto) e Extra-Brut (Extra-bruto).  Quando não há adição do chamado licor de expedição, temos o Brut Nature. As bebidas são sempre um pouco mais doces do que o nome indica. Os espumantes obtidos pelo método tradicional ou champenois serão sempre mais caros do que os demais, pelo tempo, dedicação e expertise exigidos. Os mais secos, melhores do que os mais doces.

Um detalhe que antecipa a qualidade de um espumante é a perlage, ou seja, as  bolhas formadas no copo. Devemos observar o tamanho das bolhas, sua abundância e o tempo em que continuam surgindo no fundo da taça. Quanto menores e mais numerosas, mais agradáveis e valiosas.

Um exemplo de espumante francês externo à Champagne é o Blanquette de Limoux do Languedoc francês. Estes vinhos foram os primeiros gasosos do mundo, anteriores às champagnes, pois datam de 1531. Autores da descoberta? Monges beneditinos da abadia de Saint-Hilaire. Soa familiar? Seu preço é bem inferior ao de uma champagne. O mesmo vale para as cavas, da Catalunha, região autônoma da Espanha, cujas marcas mais conhecidas no Brasil são Freixenet, Codorniù e Cristalino. A Codorniù Pinot Noir, rosé, não fica a dever nada a boas champagnes rosés. Para quem torce o nariz a rosés, vale lembrar que, no caso de champagnes e cavas, as melhores são as rosés de Pinot Noir de anos especiais.

Recentemente os espumantes portugueses subiram muito de qualidade, e os vinhos da família Pato ganharam elogios de conhecedores e especialistas. Apesar da fama de cervejeiros, os alemães estão entre os maiores consumidores de espumantes do mundo. Von Metternich e Henkell são produzidos em larga escala, com boa qualidade. Destaque para os goles feitos com a uva riesling.

Nas Américas, em média os espumantes chilenos e argentinos têm nível similar aos brasileiros. Muitos goles medíocres, alguns interessantes. A versão argentina do Freixenet, chamada Tournée, deixa a desejar. A Mumm é melhorzinha, pero no mucho.



No Brasil

Depois de fabricar vinhos brancos gaseificados artificialmente durante muitos anos, os produtores nacionais de ponta partiram para bons exemplos de espumantes, usando métodos e uvas diversos, em busca de uma identidade nacional para o gênero. Exemplos pioneiros foram o Asti Martini, nos anos 1980, e os Chandon iniciais.

Não se discute que há espumantes de boa qualidade em nosso país. Cave Geisse, Salton, Chandon, Miolo e Valduga têm produtos interessantes em sua linha top. Em segundo plano estão os vinhos mais baratos dessas casas, bem como os Almadén, Dal Pizzol, Peterlongo, Aurora e Marson. Correndo por fora surgiram goles de produtores pequenos, preparados artesanalmente, com resultados que variam entre o precário e o sublime. Em geral, o espumante Moscatel nacional é muito doce, chega a ser enjoativo.

Uma avaliação como esta pode ter muito bem sido ultrapassada por exemplares mais recentes de espumantes das vinícolas citadas, ou ao contrário, pela queda de qualidade de alguns vinhos que já foram bem cotados. A lista reflete apenas uma opinião pessoal. Melhor que se guiar por palpiteiros, críticos, matérias pagas, repositores de supermercado e enochatos é experimentar e comparar tipos e marcas disponíveis antes de adquirir a sonhada caixa com uma dúzia de garrafas que darão vida aos vivos e renderão vivas dos convivas.



Um benefício adicional

Embora a combinação de espumantes e comidas seja uma arte, trata-se de uma arte bem mais acessível do que as harmonizações de pratos com outros vinhos. No geral, vão bem com quase tudo. Um bom espumante pode acompanhar vários pratos sem prejudicá-los, sem exigir do anfitrião conhecimentos profundos das afinidades e incompatibilidades eno-prandiais.



 

Por Celso Nogueira - tradutor, editor e redator especializado em alimentos e bebidas, trabalha com marketing de relacionamento em uma multinacional e faz traduções literárias e gastronômicas, além de realizar palestras e conduzir degustações sobre gastronomia, cachaça e charutos. Foi um dos fundadores e atuou como diretor da confraria Cigar Club.

 

 
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