Um charuto brasileiro na obra de Dürrenmatt
Por Celso Nogueira

Quem espera encontrar apenas referências a ícones cubanos na literatura mundial de qualidade levará um susto ao ler o romance Grego Procura Grega. Dürrenmatt, talvez o mais importante autor suíço do século vinte, grande apreciador de charutos, reservou os elogios de seu personagem para um puro... brasileiro.

Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) foi um dos mais importantes escritores suíços de língua alemã no século XX. Não produziu apenas como dramaturgo, mas também como ensaísta, romancista, crítico teatral, poeta, roteirista e pintor. Em sua obra teatral se destacam A Visita da Velha Senhora (1956), Os Físicos (1962) e Seria Cômico Se Não Fosse Trágico (1969).

Recentemente seu conto A Pane, escrito em 1956, foi adaptado pelo advogado criminalista Nilo Batista e encenado em São Paulo com direção de José Henrique. A história se passa durante um animado banquete em que quatro profissionais da Justiça se divertem brincando de tribunal, tendo um hóspede como réu. A trama se desenrola ao sabor das melhores comidas – servidas em cena de verdade –, acompanhadas de nobres bebidas, que vêm à mesa por dois criados-narradores.

“Friedrich Dürrenmatt, além de escritor e dramaturgo consagrado, era reconhecido como grande gourmet e conhecedor de vinhos. O texto de A Pane é pontuado pela comida, e o estímulo dos sentidos – a platéia vê a refeição, sente seu cheiro e vê os atores comerem – é muito importante para o espetáculo”, explica José Henrique, ressaltando a relevância do banquete na construção de um “clima” que mescla realidade e fantasia. O conto A Pane foi publicado no Brasil juntamente com Grego Procura Grega, pela Editora Globo, em tradução de Lia Luft (Grego) e Stella Altenbernd (esgotado).

Arquíloco, o protagonista de Grego Procura Grega, insatisfeito com sua vida medíocre, resolve procurar uma noiva. Filho de gregos, publica anúncio em jornal para obter uma noiva grega. A rotina dele é banal, restrita a um quarto desconfortável, um restaurante medonho, um emprego de sub-guarda-livros numa grande empresa de armamentos. Contudo, a partir da publicação do anúncio, sua vida muda completamente. Aparece uma noiva espetacular, ele é promovido a diretor da empresa em que trabalha e passa a frequentar a elite local, sendo paparicado pelo bispo e pelo presidente da república. Todos que o ignoravam passam a cumprimentá-lo e a tratá-lo como pessoa ilustre. Submetido a infindáveis requintes, badalações e luxos, Arquíloco revê sua postura de abstêmio, não-fumante, assexuado...

Em Grego Procura Grega, Durrenmatt revela ser ainda conhecedor e apreciador de bons charutos. Afinal, quase sai fumaça de uma de suas frases mais famosas, que tão bem traduz ideais charutísticos: Dedique mais tempo ao seu trabalho do que trabalho ao seu tempo.

Gastronomia, bebida, charuto e literatura formam um excelente conjunto. Sendo a literatura a única que não exige moderação. Neste romance, que apresenta dois finais, os personagens têm certa dimensão trágica, mas a ação é cômica, baseada em paradoxos e ambivalências quase kafkianas. E o leitor pode escolher um final feliz, ou o outro...

Para espanto geral, em Grego Procura Grega um personagem não só cita como elogia um charuto brasileiro ao receber Arquíloco, o protagonista, para uma confissão:

O bispo Moser, gordo e rosado, em seu traje preto de pastor, colarinho branco duro, recebeu Arquíloco em seu quarto de estudos: um aposento pequeno e enfumaçado, de paredes altas, apenas iluminado por uma lâmpada, forrado de livros espirituais e profanos, com uma janela alta atrás de pesadas cortinas...
– Antes que você abra seu coração, eu gostaria de abrir o meu – disse o bispo. – Aceita um charuto?
– Não fumo.
– Um cálice de vinho? Um schnapps?
– Sou abstêmio.
– Permite que eu fume um charuto? Para conversas íntimas e confissões prazerosas não há nada como um belo Dannemann. Lutero disse: “Peca corajosamente.” Eu gostaria de acrescentar: “Fuma corajosamente”, e também, “Beba corajosamente.” Permite? O bispo encheu um copinho com a aguardente guardada atrás dos livros, numa garrafa.
(...)
E o bispo Moser acendeu seu Dannemann...

Bons charutos na Suíca

Por falar em Suíça, engana-se quem pensa que os melhores charutos do mundo estão em Cuba. Eles estão guardados na Suíça. Ali os puros cubanos de safras excepcionais são conservados como se fossem jóias e comercializados por preços astronômicos aos grandes banqueiros e empresários. Clássicos cubanos valem conforme a safra, na Gérard, Père et Fils. Os filhos de Gérard, já falecido, escrevem livros, vendem charutos e mantêm uma marca própria respeitada na Europa. Vale a pena conhecer a família, no site www.gerard-pere-et-fils.com



Celso Nogueira   Celso Nogueira - tradutor, editor e redator especializado em alimentos e bebidas, trabalha com marketing de relacionamento em uma multinacional e faz traduções literárias e gastronômicas, além de realizar palestras e conduzir degustações sobre gastronomia, cachaça e charutos. Foi um dos fundadores e atuou como diretor da confraria Cigar Club.

 

 
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