O Charuteiro Impostor
Por Celso Nogueira

Nem todos os apreciadores de charutos são, digamos assim, boa gente. Um vigarista ficou na história e inspirou escritores como Jorge Luis Borges e Anthony Trollope. Seu nome? Roger Tichborne, Arthur Orton ou Tom Castro.


Na noite de Natal de 1866 um sujeito corpulento e amigável entrou no pub Globe, em Wapping High Street, numa área pobre da zona leste de Londres. Tomou um cálice de sherry, acendeu um charuto e começou a puxar conversa. Discretamente, fazia  perguntas sobre a família Orton, que vivia na região.


Quem seria o estranho sujeito? Um açougueiro chamado Arthur Orton ou o herdeiro milionário sir Roger Tichborne, desaparecido num naufrágio quando retornava do Rio de Janeiro para Londres? Com seu inseparável charuto, ele alimentou uma polêmica que durou décadas e só terminou em um dos mais famosos julgamentos da Inglaterra, no final do século XIX, do qual uma frase se tornaria imortal, sendo depois atribuída a vários outros espertinhos: “Acredito que as pessoas a quem sobra dinheiro e falta cérebro foram criadas para o benefício das pessoas a quem sobra cérebro e falta dinheiro.”


Aos advogados, uma preciosidade: a íntegra do julgamento citado está na internet e oferece uma oportunidade de conhecer melhor os procedimentos legais e o estilo vitoriano. Ao contrário do que se pode supor, trata-se de inglês claro e corrente, que pode ser compreendido por quem tiver um conhecimento médio ou instrumental da língua.

O incrível da história era a semelhança entre lord Tichborne  e o açougueiro: quase nenhuma. Um era magro; o outro, gordo. Um tinha cabelo claro, o outro, escuro. Um aprendeu a falar francês antes do inglês, e tinha forte sotaque. O outro não sabia uma palavra de francês. Um tinha tatuagem, o outro, não. Mesmo assim a história colou...


Caso Tichborne

Sir Roger Tichborne (à esquerda) e Arthur Orton (à direita)

O herdeiro desaparecido

Sir Roger Charles Doughty Tichborne nasceu em Paris no dia 05 de janeiro de 1829, filho mais velho de um baronete e herdeiro dos Tichborne, uma família católico-romana de Hampshire. Rei James I da Inglaterra fez de seu ancestral, Sir Benjamin Tichborne, xerife de Southampton, baronete em 1621. Seu pai era James Francis Doughty-Tichborne e sua mãe uma dama francesa, Henriette Felicite.


Graças à influência da mãe, que não apreciava muito a Inglaterra, sir Roger falava principalmente o francês. Na verdade, ele viveu com a mãe na França até os 16 anos. James Tichborne teve de alegar que o garoto iria a um funeral na Inglaterra para que sua mãe o deixasse partir. Em 1849 foi estudar no Stonyhurst College e mais tarde naquele ano ingressou na 6th Dragoon Guards em Dublin. Parece que seu sotaque francês era motivo de zombaria e ele vendeu seu posto em 1852. No ano seguinte partiu para a América do Sul.


De Valparaíso ele cruzou os Andes e chegou ao Rio de Janeiro em 1854. Em abril, durante o trajeto de volta, o navio em que estava se perdeu no oceano, ele foi dado como morto no ano ;seguinte. O título e os bens passaram para o irmão mais novo, sir Alfred Joseph Doughty-Tichborne (que morreu em 1866).


Surge o requerente

Arthur Orton c. 1872
Ao ler a notícia da morte do filho mais velho, a mãe de Sir Roger recusa-se a acreditar em sua morte. Envia investigadores por todo o mundo e, em novembro de 1865, recebe uma carta de um advogado de Sidnei que dizia que um homem que supostamente se encaixava na descrição de seu filho estava vivendo como açougueiro em Wagga Wagga, Austrália.


O suposto Sir Roger era na verdade Arthur Orton, que na época usava o nome de Tom Castro. Tirando alguma semelhança facial com Tichborne, ele não se encaixava em nada no perfil do nobre. Em vez de uma feição esguia e cabelos pretos, tinha um rosto arredondado e cabelos castanho-claros. Além disso, estava acima do peso e não falava uma palavra de francês. Sua primeira carta mencionava coisas que Lady Tichborne não conhecia. Mesmo assim ela estava desesperada o suficiente para aceitá-lo como filho e enviou-lhe dinheiro para que viesse até ela. Orton relutou em ir, possivelmente porque temia a exposição, mas seus comparsas – entre eles um velho amigo do pai de Sir Roger – o fizeram mudar de idéia. O antigo criado de sir Roger, Andrew Bogle, o acompanhou na viagem à Grã-Bretanha.


Ele chegou a Londres no dia de Natal de 1866 e visitou as propriedades dos Tichborne, Lá conheceu os advogados da família, Edward Hopkins e Francis J. Baigent, que se tornaram seus aliados. Quando, em janeiro, chegou ao hotel em Paris onde vivia Lady Tichborne, a desesperada dama o “reconheceu” instantaneamente como seu filho. Chegou até mesmo a entregar-lhe uma carta escrita por Sir Roger na América do Sul. O fato de Orton não entender uma palavra de francês não a incomodou, e ela ainda lhe deu uma mesada de £1.000,00 por ano. Orton pesquisou a vida de Sir Roger para reforçar sua farsa.


Depois do endosso de Lady Tichborne, vários outros conhecidos de Sir Roger também o aceitaram. Entre eles vários oficiais da 6th Dragoons, diversas famílias da região e habitantes de Hampshire. Ele inclusive contatou um grupo de empregados que serviram na 6th Dragoons.


Começa a resistência
Outros membros da família Tichborne não eram tão ingênuos e de imediato disseram que ele era um impostor. Seus investigadores descobriram que Tom Castro era filho de um açougueiro de Wapping e desembarcou em Valparaiso, Chile, onde assumiu o nome Castro de uma família amiga. Orton inclusive perguntou sobre seus familiares em Wapping quando retornou da Austrália. Encontraram também muitas outras discordâncias quando Orton tentou combinar suas experiências na América do Sul com as vividas por Sir Roger.


Quando Lady Tichborne morreu, em março de 1868, Orton perdeu sua mais importante aliada. Ele provavelmente teria parado com a farsa caso não devesse tanto dinheiro (Ele vendeu os “créditos dos Tichborne” para pagar os custos legais de quando tentou reclamar a herança da família). O verdadeiro herdeiro, Sir Henry Alfred Joseph Doughty-Tichborne, tinha apenas dois anos de idade.


O Julgamento

Jornal The Illustrated London News de 24 de janeiro de 1874.

O julgamento para determinar seu direito à herança começou em 11 de maio de 1871 na Corte de Apelação Comum diante de Sir Alexander Cockburn, 12° baronet CJ, e durou 102 dias. Orton enfrentou os ataques contra as discrepâncias em sua história e à completa ignorância diante de fatos que Sir Roger saberia, inclusive ao fato de não falar francês, uma vez que teria passado a juventude na frança. Mais de 100 pessoas testemunharam a favor de sua identidade como Sir Roger – exceto o irmão de Orton que afirmava o contrário. Por fim, Sir John Colleridge (cujo subordinado era Charles Browen) revelou todo o caso em um interrogatório que durou 22 dias e as provas da família Tichborne finalmente convenceram ao júri.
O caso foi encerrado em 05 de março de 1872, quando o advogado de Orton, Willian Ballantine, desistiu quando testemunhas descreveram tatuagens que Sir Roger tinha, mas Orton não, e depois que Orton perdeu seus aliados da classe alta.

 

 

 
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