Cerveja Fazendo espuma
por Celso Nogueira

Ao contrário da enologia, terra de cegos onde quem tem uma narina é rei, a cerveja mais parece futebol. Milhões de técnicos dominam o assunto nesta terra tropical, cada um deles é capaz de discorrer longamente sobre as vantagens de sua loira predileta, bem como esculhambar rivais.

Abordar o assunto equivale a começar uma briga de torcidas. Mesmo assim, apresentamos uma introdução às cervejas vendidas no Brasil. Destaque para a legislação brasileira, que ordena as variedades disponíveis no mercado conforme a quantidade de cevada e outros parâmetros.

As cervejas são classificadas pelo teor de álcool e extrato, pelo malte ou de acordo com o tipo de fermentação. As cervejas de alta fermentação são aquelas cujas leveduras flutuam, durante o processo, em temperatura de 20ºC a 25ºC, gerando um produto de cor cobre-avermelhada, de sabor forte, ligeiramente ácido e com teor alcoólico entre 4% e 8%.

A maior parte das cervejas brasileiras são de baixa fermentação, ou seja, quando expostas a temperaturas entre 9ºC e 14ºC, o levedo fica depositado no fundo do tanque. As ales são exemplos de bebida obtida por alta fermentação.

Quem quiser conhecer todo o processo de fabricação pode visitar uma cervejaria artesanal que disponha de uma visita monitorada, como é o caso da Eisenbahn e da Baden-Baden

Identificar uma boa cerveja é tão complicado quanto distinguir um bom vinho. Antes de entrar no mérito dos aspectos organolépticos, vale lembrar a classificação mais importante da cerveja, quanto à proporção de malte de cevada. Ficam de fora as cervejas de trigo, que constituem categoria à parte. E as cervejas para outros fins também, como a Boza (deve ser a mulher do Bozo...)

Cerveja e seios

Consta que os europeus estão "invadindo" a Bulgária para comprar a cerveja Boza, que dizem aumentar os seios das mulheres. A correria ocorre porque, após o ingresso deste país na União Européia, os impostos sobre a bebida foram abolidos.

A Boza é uma cerveja búlgara feita de trigo moído fermentado e levedura. A bebida se tornou popular em toda a Europa. A cerveja é comprada principalmente pelos homens, que a dão de presente para as mulheres e namoradas, devido ao seu suposto efeito de aumento dos seios femininos.  Talvez o mito tenha relação na origem com a noção popular de que a cerveja preta tipo malzbier aumenta o leite materno.

Aqui, para beber sem medo, temos as seguintes espécies de cerveja de cevada, segundo a Anvisa:
 
a) cerveja puro malte, aquela que possuir cem por cento de malte de cevada, em peso, sobre o extrato primitivo, como fonte de açúcares;
b) cerveja, aquela que possuir proporção de malte de cevada maior ou igual a cinqüenta por cento, em peso, sobre o extrato primitivo, como fonte de açúcares;
c) cerveja com o nome do vegetal predominante, aquela que possuir proporção de malte de cevada maior do que vinte e menor do que cinqüenta por cento, em peso, sobre o extrato primitivo, como fonte de açúcares.

Ou seja, com menos de cinquenta por cento de malte de cevada, como fonte de açúcares, o produto nem é considerado cerveja. A proporção de malte de cevada define tanto a qualidade quanto o preço da bebida. O açúcar de cana e outros cereais são bem mais baratos.

Embora o sejam oficialmente, pela lei, não merecem dos apreciadores o nome de cerveja certas águas amarelas gasosas enlatadas, que não têm quase sabor, no estilo Cintra, Glacial, Malta, Krill e outras  obscuras, facilmente reconhecíveis pelo preço abaixo de oitenta centavos a latinha. A quantidade de cevada é insuficiente, o aroma quase ausente, falta lúpulo. Cumprem o modesto papel de refrigerante com álcool e não merecem atenção.

No limite da linha de pobreza estão as marcas dos fabricantes mais populares, adequadas a grandes confraternizações, festas de firma, encontros de famílias numerosas, comemorações diversas em bufês e salões de festa. Passam raspando no quesito sabor e dominam o mercado das latas, numa bem-sucedida equação de mediocridade e preço. São os carros chefe das principais companhias do ramo – Ambev, Kaiser, Itaipava e Schincariol: Antarctica, Brahma, Skol, Kaiser, Itaipava, Bohemia, Nova Schin, Bavaria etc.

Kaiser mexicana

A FEMSA Cerveza adquiriu a Kaiser em 2006, e é a principal cervejaria do México. Passou a brigar pelo competitivo mercado brasileiro usando a experiência de produzir marcas de renome internacional como Tecate, Sol, Carta Blanca, Bohemia, XX Âmbar, XX Lager, Superior e Índio. As Cervejarias Kaiser Brasil passaram a se chamar FEMSA Cerveja Brasil e promete muitas novidades. Começou bem, com o aumento da distribuição da Kaiser Gold, antes um privilégio dos sulistas.

Subindo um degrau, temos as top de linha das médias e grandes fábricas. Melhores exemplos: Stella Artois, Heineken, Kaiser Gold, Xingu, Caracu, Cerpa, Petra, Brahma Extra, Serra Malte e Original. São cervejas de puro malte ou nas quais a cevada predomina. A versão em garrafa deve ser sempre preferida à lata. Muitos sustentam que há variação no sabor, sendo a de garrafa sempre superior. As fábricas as chamam de super premium, mas deve ser gozação. De todo modo, formam a porta de entrada para o mundo das cervejas que bebemos com prazer, e não somente para aliviar o calor.

No alto da pirâmide cervejeira encontram-se as marcas artesanais brasileiras e algumas importadas. Nem todas são espetaculares, e ser feita numa empresa pequena não garante a qualidade. Nem todas as artesanais são ótimas – mas quase todas as ótimas são artesanais.

A Baden-Baden, de Campos do Jordão, cervejaria artesanal com ampla distribuição, foi adquirida recentemente pela Schincariol. Os apreciadores torcem para que a qualidade da Stout, Bock, Celebration e Red Ale se mantenha, com a nova direção. Assim como o bar e restaurante, tradicional em Campos do Jordão. Já a Devassa, do Rio de Janeiro, ainda precisa aprimorar sua produção.

A mais cara

O problema das cervejas artesanais é a distribuição. Uma formidável breja pode estar disponível apenas em Teresópolis ou no interior do Rio Grande do Sul, e fica difícil avaliar todas. Mas o melhor exemplo de cerveja artesanal de ampla distribuição é a Eisenbahn, de Blumenau, em Santa Catarina. A Pale Ale é uma das grandes cervejas brasileiras, páreo para boas ales inglesas. Destacam-se também a Dunkel e a Kolsch. A Eisenbahn faz a mais cara das cervejas nacionais, a Lust, que custa quase 70 reais.

Harmonização Cerveja e Charutos

Embora tradicionalmente as cervejas mais adequadas para acompanhar charutos sejam encorpadas como a Rauchbier, desenvolvida pelos cervejeiros de Blumenau em parceria com Cesar Adames, ou uma Guinness, como apreciam frequentadores do bar O'Malley em São Paulo, arrisquei uma combinação de cerveja Original com uma raridade, o charuto Punch super robusto destinado exclusivamente ao mercado Ásia/Pacífico, presente de um amigo.

De cara uma surpresa - o Punch não apresentou a pegada típica da marca. Era um charuto quase suave, embora não fosse fraco. Sabores sutis evoluíram lentamente, e só no terceiro terço se manifestaram na plenitude. Talvez os cubanos acreditem que os asiáticos preferem puros mais leves.
Mesmo assim, o charuto praticamente matou a Original, que quase poderia ser substituída por água, pois sua função ficou reduzida a pouco mais do que molhar a boca. Até um charuto sutil mostrou-se capaz de inundar o paladar, zerando a cerveja. A Original, portanto, não apresenta uma intensidade de sabor capaz de acrescentar elementos gustativos à combinação.

Importadas

Apesar da grande variedade de marcas estrangeiras, o consumo de cerveja importada no Brasil é insignificante, cerca de 0,05% do mercado total, segundo o sindicato patronal do setor. Mas esta minoria sabe o que está bebendo e consome produtos de alto valor agregado. Acaba puxando para cima o portfolio das grandes cervejarias, que se vêem obrigadas a oferecer produtos diversificados.

Entre as importadas destaca-se o trio Norteña, Pilsen e Patricia, trazidas do Uruguai pela Ambev, em garrafas de um litro. Já eram conhecidas pelos frequentadores de parrillas, as churrascarias argentinas abertas no Brasil. Lembram delícias do passado brasileiro, como a Antarctica faixa azul. Encorpadas, com presença de lúpulo marcante, rivalizam com alemãs e holandesas, a um custo menor.

Entre as estrangeiras temos atualmente bons exemplos das marcas alemãs, como Paulaner, Warsteiner, Frankenheim, Franziskaner, Weihenstephaner. A Erdinger, talvez a mais popular de trigo, é apenas medíocre, com exceção da Pikantus.

Entre as holandesas, destaque para a Grolsch. A irlandesa Guinness e as belgas, como Deus, Duvel e Chimay,  constituem uma categoria à parte. Existem opções de qualidade variável, de outros países onde a tradição cervejeira não é tão grande, do tipo do Japão, Grécia e Austrália. E, na América do Sul, as excelentes marcas bolivianas e peruanas, como Paceña e Cuzqueña.

No copo certo

Mais até do que os vinhos, cervejas pedem copos adequados a cada tipo. Em linhas gerais, cervejas claras tipo pilsen devem ser tomadas em copos altos, sem pé. Cervejas encorpadas ou escuras vão melhor em copos mais bojudos, com pé. O copo tipo pint, dos pubs ingleses, é outro clássico, principalmente na versão Guinness. Assim como os copões para as cervejas de trigo. Conheça os principais tipos na Wikipedia

Comes e Bebes

A harmonização da cerveja com alimentos em geral é mais fácil que a do vinho. Tanto que culinárias exóticas e condimentadas, das quais os goles de uva passam longe, combinam bem com os maltes fermentados.

A lista começa, claro, pelos embutidos. Salsichas, linguiças, presuntos e outros frios praticamente pedem uma cerveja. Salames fortes, presunto cru e defumados incompatíveis com vinho sentem-se extremamente à vontade com cervejas diversas. A tipo pilsen serve de coringa, vai bem com quase tudo. Ales e escuras combinam com pratos bem temperados, carnes assadas, queijos fortes etc.

Por isso a cozinha indiana e a japonesa acompanham uma boa cerveja tão bem quanto a alemã. Até os tradicionais antepastos italianos, de uma terra onde reina o vinho, são degustados no Brasil com uma linda loura gelada. Portanto, não admira que os apreciadores de bons charutos procurem também uma cerveja adequada a suas fumaças.

Minha Cerveja

Foi preciso uma estadia na Alemanha para eu aprender a apreciar as cervejas mais encorpadas, com personalidade, que não servem somente para refrescar tardes de sol escaldante e muito churrasco. Minha cerveja preferida é da marca nacional Eisenbahn, de Blumenau, SC. Trata-se da Pale Ale, inspirada na cerveja inglesa de malte âmbar e alta fermentação. A combinação do amargor do lúpulo com um leve aroma frutado faz da Pale Ale uma bebida saborosa sem ser enjoativa, encorpada sem ser agressiva, artesanal sem ser inacessível.



Lígia Guedes é professora de línguas (alemão e inglês) em São Paulo.

 

 
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