A cara da cachaça
por Celso Nogueira


PartagasQuando o design de embalagens chegou às cachaças encontrou a garrafa coberta de palha da Ypióca como exemplo de criatividade. Hoje marcas como Rio, GRM, Janeiro, Germana, Sagatiba e DJ agradam também pela aparência. Cristal soprado, jateamento, formatos exclusivos tornaram-se recursos comuns para dar a nossa bebida uma cara mais bonita.

A megaoperação da Ypióca depende de milhares de artesãos, pois a cobertura de palha de carnaúba das garrafas é feita manualmente. Tornou-se um símbolo da marca, fator fundamental de sua identidade. Outras garrafas vieram, mas a Ypióca será sempre associada à garrafa de palha, cuja produção ajuda a manter vivo o artesanato do Nordeste e reforçaa renda familiar de cinco mil mulheres cearenses. Numa das edições da feira Brasil Cachaça (a próxima será em maio de 2009, no Transamerica Expo Center) montaram um stand em que algumas das artesãs mostraram sua incrível habilidade para trançar a palha de carnaúba, a mais nobre das palhas de palmeira.

PartagasA Ypióca empalhada está disponível em duas versões, Ouro e Prata. A versão Ouro, envelhecida dois anos em tonéis de bálsamo, é como as outras produzida por processos industriais, e não em alambique. No topo da linha está a 150, lançada em 1996 para comemorar o aniversário da empresa. Descansa três anos em tonéis de bálsamo e outros três em carvalho. A garrafa bojuda reforça as características da cachaça, voltada aos consumidores mais exigentes, assim como a 160, primeira aguardente com malte do mercado, uma aposta em um novo nicho de mercado. Aos mais tradicionais parece uma opção estranha, deixa a cachaça parecida com uísque, sendo isso qualidade para alguns e defeito para os mais nacionalistas.



O portfólio da Ypióca diversificou-se nos mais de 160 anos de história da empresa sediada no Ceará (comemorados com o lançamento da Ypióca 160, primeira cachaça brasileira com malte). A família Telles começou a destilar a cana em alambiques de barro, em 1846, e não parou até hoje. Instalada em Maranguape, a 30 km de Fortaleza, a empresa mantém no local um interessante Museu da Cachaça, aberto ao público.

A Rio mergulha de cabeça na sofisticação da garrafa, produzida pela Belvedere francesa, que lembra o design das vodcas elegantes. A Ypióca Rio passa seis anos em barris de carvalho e sua venda privilegia o mercado internacional. Ela é a prova que uma aguardente elaborada por processos industriais pode sim ter qualidade. Existem cachaças de alambique boas e ruins, o mesmo vale para as de coluna. Entre as boas cachaças de alambique a Germana firmou-se no mercado também por causa da simpática garrafa coberta de palha de bananeira.



Puro cristal



PartagasMônica Nunes, da Faap (MBA Gestão do Luxo), realizou um estudo sobre a cachaça e destaca os aspectos ligados à embalagem: “cada cachaça faz o exercício de refinamento a seu modo. A Espírito de Minas, uma das mais famosas entre as artesanais antigas, selecionou uma de suas reservas (armazenada por seis anos) e encomendou ao artista plástico Aldemir Martins o desenho do rótulo.
Rótulo criado por Aldemir Martins

Há quem misture características industriais com uma certa dose de refinamento e se dê o bem. A Sagatiba, lançada pelo empresário Marcos Moraes, não é uma cachaça premium, mas trouxe um novo conceito para o mercado mundial: o da cachaça industrializada multidestilada, uma bebida de aparência cristalina e sabor suave. Dessa forma, circulou em festas, bares e cozinhas badaladas com a aura de uma bebida diferenciada com preço acessível. Conquistou um público jovem e até foi eleita pela revista inglesa Wallpaper como uma das melhores do mundo. Com suas duas versões, a "Pura" e a "Velha" (esta é produzida com lotes selecionados de pequenos produtores), atua no exterior: tem canal próprio de distribuição na Europa, o que quer dizer que a empresa monitora a bebida desde a produção até o ponto-de-venda.

Já a terceira maior fabricante de bebidas do mundo, a Pernod Ricard (dona de marcas como Chivas Regal, Havana Club e Jacob's Creek) desenvolveu uma cachaça 100% brasileira, em Resende (RJ), lançada em dezembro de 2004.

Com o nome de Janeiro , "é uma cachaça branca premium , que não é envelhecida", explica Eric Sampers, diretor comercial de Pernod Ricard. Voltada para a exportação, é vendida em mais de 10 países, mas também é encontrada aqui "em lugares estratégicos como pontos de consumo freqüentados por turistas e no Duty Free (US$ 12,50 a garrafa)", acrescenta.

Criada para ser uma cachaça premium para exportação, a GRM - Gosto Requintado Mundial - foi lançada em 2002, estrategicamente em Paris, durante o Salão Internacional da Alimentação, o maior da Europa, e conquistou rapidamente o mercado internacional (especialmente Estados Unidos, França, Japão, Alemanha e Escandinávia). No Brasil - caminho natural -, ela está sendo vendida desde março de 2003.



Produzida na Fazenda dos Verdes, no município de Araguari, no Triângulo Mineiro, consumiu um investimento inicial de R$ 350 mil na sua criação, fabricação ( 150 mil litros) e distribuição. E tem uma característica muito especial: é produzida a partir dos sete hectares de cana-de-açúcar da fazenda, cultivados sem nenhum agrotóxico. Ou seja, a GRM é orgânica e processada artesanalmente, da mesma maneira como se fazia há mais de três séculos, o que garante sua altíssima qualidade. A fabricação não inclui a utilização de nenhum aditivo ou corante e a fermentação recorre à levedura selvagem.
A estratégia da empresa é manter-se na raridade.

Partagas"O mercado está num momento de aceitação, por isso, sempre surgem marcas novas, assim como outras desaparecem. A GRM foi criada a fim de quebrar os preconceitos sobre a cachaça, e vem conquistando os apreciadores de cognac e whisky”, avalia Daniel Cruz, presidente da empresa. O tempo de envelhecimento da GRM varia de acordo com os efeitos climáticos, e vai de dois a três anos no carvalho, de um a dois anos na umburana e mais um ano no jequitibá-rosa."


De acordo com o processo de envelhecimento, a GRM tem duas versões: a Prata, amarelada e envelhecida nos três tonéis, e a Bronze, branca, envelhecida em tonéis de jequitibá rosa, processo que retira toda a acidez da bebida e proporciona um leve aroma de cana fresca. Ambas são encontradas em garrafas requintadas de 750 ml, fechadas com rolha e tampa de vidro, numa embalagem especial, que ainda pode trazer taças especiais para degustação.”



PartagasA tradição da Havana

A cachaça Havana, rebatizada de Anísio Santiago, continua na contra-mão do design, mostrando que o antimarketing é uma grande jogada voltada à valorização do produto, quando bem feito.

Segundo Nunes, “vamos aprendendo com o trabalho diferenciado que algumas marcas de prestígio realizam, sempre pautadas pela excelência. Sem dúvida, são boas ferramentas para atuar em qualquer mercado. Ou, então, continuaremos nos mirando na atuação ímpar de pequenos alambiques pra lá de tradicionais, que têm raízes fortes com o passado e continuam mantendo sua essência, fiéis à tradição e à história, características intrínsecas de uma marca luxuosa. Estou falando da cachaça mineira Havana. Seu criador, Anísio Santiago, já faleceu, mas continua sendo uma lenda em Salinas (MG), região conhecida pela produção de boa cachaça.

Foi em 1946 que ele iniciou a produção de cachaça, envelhecida em tonéis de madeira. Fabricava por volta de 8 mil litros/ano, sem nunca se preocupar com grandes volumes.

E, assim, a Havana rapidamente tornou-se cobiçadíssima pelos apreciadores. Dizem até que a porteira da fazenda Havana vivia cercada de interessados em adquiri-la no "mercado-negro", o que continuou acontecendo nas décadas seguintes. Hoje, a fazenda é administrada pelo genro de Anísio, João Ramos, que mantém-se fiel às origens: a cachaça só é vendida pelo alambique e a garrafa custa cerca de R$ 160,00, o mesmo que os melhores whiskies escoceses 12 anos.

Agora, eis o acontecimento que valorizou ainda mais a marca no mercado. Devido a queixas registradas por produtores cubanos de rum (Havana Club, representado pela Pernod Ricard), a Havana mudou de nome para Anisio Santiago , o que transformou em raridade algumas garrafas antigas de Havana, que podem ser vendidas por mais de R$ 1.000,00. Eu encontrei alguns exemplares únicos da cachaça no Empório Santa Terezinha, no Mercado Municipal, na capital paulista, que vende inúmeras marcas de cachaça com preços que variam de R$ 20,00 a R$ 1.500,00. Lá, as raras Havana custam entre R$ 15 e R$ 20 mil. São objetos de colecionador.



E o copo ?

PartagasAlém dos tradicionais copos de dose, com base de vidro maciço, existe um copo especialmente desenvolvido para a degustação de cachaças. . O projeto nasceu na Coocachaça, cooperativa de produtores de Minas Gerais em parceria com a Cristais Hering, de Santa Catarina. O desenho da taça foi burilado depois de uma viagem à Europa, com visitas a caves de vinho, conhaque, grapa e champanhe.

O cálice tem 13 centímetros de altura, base arredondada e é mais fechado na borda. Cada detalhe tem uma função: o bojo largo é ideal para misturar a bebida. Nesse momento, deve-se observar a formação de um rosário com pequenas bolhas, característica da boa cachaça. Em seguida, é preciso girar o copo e molhar as paredes para checar a oleosidade. Ao escorrer, o líquido deve formar lágrimas que desçam lentamente. A etapa seguinte é apreciar o aroma. O ângulo estreito da borda auxilia na formação do buquê. O copo em cristal ou vidro é o correto para observar a cor da bebida. “O antigo copo de cachaça não combinava com o novo perfil elegante que a cachaça assumiu recentemente”, afirma Dirlene, da Coocachaça.



Celso Nogueira   Celso Nogueira - Celso Nogueira - Tradutor literário, editor e colunista especializado em alimentos e bebidas, realiza palestras e conduz degustações sobre gastronomia, cachaça e charutos. Foi um dos fundadores e atuou como diretor da confraria Cigar Club.

 

 
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