Breve história da rolha de cortiça

por Jandir Passos

  A rolha de cortiça continua sendo a forma privilegiada de fechar garrafas. Ainda hoje não se conhece melhor material para efetuar o engarrafamento e permitir a boa maturação do vinho em excelentes condições de acondicionamento.

Estima-se que o sobreiro tenha surgido há cerca de 60 milhões de anos, cobrindo toda a vasta área do mar Tirreno, indo do mar Egeu até a bacia do Mediterrâneo. Os romanos chamavam o sobreiro de “ suber “ e  por isso sua denominação científica em latim é Quercus suber. Trata-se de uma árvore da família do carvalho. O tronco tem uma camada espessa a partir da qual se extrai a cortiça. Possui porte médio, com uma copa ampla e altura média de 15 - 20 m. Em casos extremos pode atingir 25 m de altura.
A extração da cortiça não é (em termos gerais) prejudicial à árvore, uma vez que esta volta a produzir nova camada de "casca" (súber) com idêntica espessura a cada 9 - 10 anos, período após o qual é submetida a novo descortiçamento.

A cortiça serve há mais de 3.000 anos para tapar ânforas utilizadas para transportar vinhos e outros líquidos. Os chineses na época já usavam a cortiça nas suas lides piscatórias.

O filósofo grego Teofrasto (300 a 400 anos a.C.), menciona o uso das rolhas de cortiça. Plínio, na sua História Natural das Plantas (Sec. I), cita que já se usavam batoques, tampas de cortiça, para vedar ânforas e tonéis. Nas escavações de Pompéia foram encontradas ânforas de vinho vedadas a cortiça, segundo o poeta romano Horácio (65-8 a.C.).
A cortiça servia também a outros usos, como o isolamento do calor e do frio, forro dos capacetes romanos, revestimento das celas dos conventos, como no Convento dos Capuchos, 1560, ou  solas de sapatos, encontradas no Alto Egito e tamancos da era moderna.

Nos tempos modernos

A rolha ganha forma cilíndrica só no séc. XVIII. Antes era selada com lacre ou cera, obtendo uma forma cônica. Transcorreram 40 séculos entre mais antiga referência do uso da cortiça e as práticas atuais da indústria.

O passo mais significativo para o uso generalizado da cortiça foi dado pelo frade beneditino francês, D. Pierre Pérignon, que era procurador da abadia de Hautvillers (fundada no
século VII), departamento do Marne, Distrito de Reims, cantão d`Ay, na região de Champagne, que deu origem ao método champenoise.
No último quarto do século XVII (1680), ao verificar que o espumante fazia saltar os tampões de madeira envoltos em cânhamo e embebidos em azeite, trocou estes por rolhas de cortiça, inicialmente revestidas com cera e presas ao gargalo com arame ou cordão, obtendo ótimos resultados, fazendo com que a rolha de cortiça passasse a ser indispensável ao engarrafamento dos vinhos. O célebre vinho recebeu a vedação apropriada, e começaram a ser fundadas casas como a Ruinart de Reims (1729) e a Moet et Chandon (1743).

Mas, se os franceses foram os pioneiros na descoberta e divulgação da arte rolheira e de engarrafamento, com o passar dos anos Portugal tornou-se expert mundial e maior produtor mundial de rolhas de cortiça, exportando para os EUA, Itália, Inglaterra e Austrália (a Nova Zelândia usa em larga escala a tampa de rosca, screw caps em inglês).
As rolhas de cortiça permitem a conservação de bebidas em garrafas em condições ideais, do vinho do Porto ao Champagne, dos vinhos de mesa ao whisky, ao sherry, ao brandy e a muitos outros, assegurando sempre a qualidade e a tipicidade dessas bebidas.
Para provar sua qualidade superior basta referir o veleiro Joenskoeping, que partiu do golfo da Finlândia em 1916, com o objetivo de abastecer a armada imperial Russa. Eram 5000 garrafas de champagne Piper-Heidsieck, da colheita de 1907, 67 barris com 35.000 litros de conhaque e 6000 litros de  vinho francês. O Joenskoeping, torpedeado, afundou dois dias depois de ter saído do porto de Gaelve. Ficou submerso a 64 metros de profundidade, caindo no esquecimento.

No verão de 1998, 82 anos depois, centenas de garrafas retornaram à superfície, saindo assim do esquecimento para mostrar que a rolha de cortiça tem qualidades insuperáveis. As garrafas de vinho e Champagne permaneciam em magnifico estado. Algumas destas garrafas foram leiloadas na Christie`s por mais de 800 dólares.

Submetida ao processo de secagem e tratada quimicamente, a rolha apresenta elasticidade, aderência, compressibilidade, longevidade, resistência ao fogo, permeabilidade ao gás e aos líquidos. Ela tem, no entanto, dois defeitos. É mais cara do que as sintéticas e está sujeita ao ataque de fungos. É o chamado bouchoné, que pode acabar com um Premier Cru Classé de Bordeaux , e que já frustrou muita gente.

Esses motivos levaram ao desenvolvimento de tampas sintéticas, que abocanham hoje cerca de 8% do mercado mundial. As rolhas sintéticas trazem a vantagem de serem mais baratas, além de evitarem o problema da contaminação do vinho por fungos. Sua eficácia tem sido provada para vinhos mais simples, de consumo rápido. Talvez por tudo isso o crítico Robert Parker tenha previsto: “Em 2015, poucas garrafas usarão rolhas de cortiça”.

Tipos de rolha

As rolhas de cortiça natural de qualidade superior devem ser utilizadas para vinhos de qualidade superior, como é o caso dos vinhos de guarda. Costumam ter de 45 à 49 mm de comprimento e 24 mm de diâmetro. As demais rolhas podem ser empregadas para os vinhos mais simples, de consumo imediato.

Rolha natural. Cilíndrica, obtida por brocagem manual ou automática, diretamente de cortiça. Quimicamente inerte, inócua, não degenera ao longo do tempo, e é o único vedante que mantém intacta a sua elasticidade oferecendo assim uma vedação perfeita e de longa duração. É um produto 100% natural.

Rolha técnica. Formada por um corpo cilíndrico de granulados aglomerados individualmente com colas aprovadas pelas Normas Internacionais de Segurança Alimentar, ao qual é colado um disco de cortiça natural em cada topo. Os discos são submetidos a um tratamento prévio de desodorização para assegurar a sua completa neutralidade.
Rolha de cortiça com cápsula. É uma rolha à qual é colada no topo uma cápsula de madeira ou PVC, vidro ou metal. A sua função é a de permitir uma abertura rápida e ser reutilizada muitas vezes. O processo de fabricação deste tipo de rolha, foi estudado de modo a proporcionar um bom poder vedante, obedecendo às normas Internacionais de Segurança Alimentar. É utilizada nos vinhos do Porto, whisky, Cognac, Armagnac, Calvados, sherry, brandy, licores, aguardentes e azeites.

Rolha de Champagne. É uma rolha concebida especialmente para vedante de Champagne e vinhos espumantes, e que apresenta as mais elevadas performances físicas, químicas e microbiológicas, graças a um processo de produção sistematicamente controlado e analisado em todas as fases. É composto por duas partes diferentes: discos de cortiça natural e um corpo composto de cortiça aglomerada, obtida através da aglomeração dos granulados pré selecionados e aglutinados entre si com colas aprovadas pelas Normas Internacionais de Segurança Alimentar.

Outras. Além das tampas de rosca, as já famosas screw caps, temos ainda as tampas de vidro, que pelo seu elevado preço ainda não é muito empregada.

 
  Jandir Passos - Engenheiro, físico e oficial do Exército, além de enófilo, o carioca Jandir Passos leciona Física na Academia Militar das Agulhas Negras. Enófilo e estudioso de vinho e cultura,  ministra a disciplina "História Contemporânea do Vinho" no Curso de Pós-Graduação sobre "Vinho & Cultura" da Universidade Cândido Mendes (UCAM).

 

 



 
  Newsletter
Cadastre-se e receba nossas
novidades em seu email.
Nome:
Email:


 
     
  Charutos Personalizados
Comemore o nascimento de seu filho, casamento ou uma conquista de sua empresa com charutos personalizados.



 
     
   Telefones:  (11) 5096-2494 / 5041-1596
  © Copyright Charutos e Bebidas. Todos os direitos reservados.
  Qualquer reprodução deste material deverá ser feita com autorização.