Banquetes e Confrarias
por Jandir Passos

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Da mesma forma que nos dias de hoje atividades esportivas como futebol, basquete e beisebol formam agremiações, o gosto pelas venationes (caçadas) induziu ao surgimento das confrarias de caçadores. Estas forneciam de tudo: pessoal, equipamentos e animais para o combate. As confrarias de caçadores eram muito comuns na África Romana (norte da África), que além de organizar e patrocinar as caçadas, desenvolviam atividades ligadas à produção agrícola (vinho e oliveiras) e ao comércio. Existiam várias delas: Telegenii, Leontinii, Pentasii, Tauriscii. Elas se distinguiam entre si por símbolos e números, que serviam para identificar a que confrarias pertenciam. Vários registros dessas confrarias foram identificados em vasos, inscrições tumulares, termas, anfiteatros e nos mosaicos das casas dos nobres.

Para dar o máximo de realismo às venationes, os romanos recriaram nos anfiteatros as condições de uma caçada real, isto é, um cenário reproduzindo o habitat africano no qual eram inseridos os animais. Violentos combates eram então travados entre os venatores (caçadores) e as grandes feras, em que o caráter sangrento e mortal dos jogos estava sempre presente, conferindo assim, mais emoção aos espetáculos. Há registros de venationes em que foram empregados cinco mil animais de várias espécies em um único dia de combate. Muitos desses eventos eram realizados para celebrar uma importante vitória militar dos romanos. Assim, a quantidade e a variedade dos animais presentes nos espetáculos era uma manifestação de Roma como domina mundi (senhora do mundo).

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No acervo do museu nacional da Tunísia, há um mosaico registrando a cena de um banquete e de uma venatio. Este mosaico foi datado como sendo da primeira metade de século III e decorava a residência de um nobre, localizada na província romana da África Proconsular (atual Tunísia). A cena do mosaico é conhecida como “Banquete à Fantasia” ou “Confrarias do Anfiteatro”. A primeira denominação advém dos adornos que os comensais portavam na cabeça e sobre as mãos. Neste mosaico, há cinco pessoas, cada uma representando uma confraria. É a parte final do banquete e do espetáculo, e sucessivas taças de vinho foram bebidas por todos. Como resultado do alto consumo, a embriaguez (e suas conseqüências) era inevitável.

O primeiro personagem, na extrema direita do mosaico, para o qual todos os outros se dirigem, permite supor que se trata do anfitrião. Ele orgulhosamente proclama a superioridade de sua confraria através da referência ao número três dos Telegenii: “Nós, os 3, estamos nos dando bem“; o segundo personagem, membro dos Leontii, tenta amenizar o discurso do anfitrião dizendo : “vamos nos divertir” ; já um outro personagem, o terceiro, membro de outra confraria, quer menos conversa e afirma: “já foi dito o suficiente”; o quarto personagem, com o símbolo dos Sinematii, proclama a ação desejada: “ nós viemos beber “; e o quinto e último personagem, com a folha de Hera e já totalmente embriagado propõe: “fiquemos nus !”.

Assim, após o consumo excessivo de vinho, ocorrido durante a luta no anfiteatro, todos terminam com um comportamento despojado, relaxado, em que os pudores são postos de lado. Esse comportamento era alvo de crítica dos censores e de uma série de leis suntuárias

Os dois mosaicos acima apresentados abordam duas divindades: a do deus Dionísio/Baco, deus do vinho, e de Artemos/Diana, deusa das caçadas. As duas divindades participam de um mesmo contexto: as caçadas realizadas nos anfiteatros. Estão prestigiando o espetáculo e protegendo os venatores (caçadores). A referência mais direta a Baco pode ser vista no segundo mosaico: em frente à mesa há uma cratera (vaso para misturar o vinho com água) no chão. Duas pequenas jarras estão sobre uma pequena mesa e servem para retirar o vinho misturado da cratera. Já Diana pode ser identificada no primeiro mosaico vestindo uma túnica branca e sustentando uma bandeja com pequenos sacos, possivelmente de cereais ou outro alimento.

Os romanos costumavam eleger um magister ou rex bibendi(espécie de mestre de cerimônias), que fixava a quantidade de vinho a se beber e a proporção de água para a mistura. Beber vinho puro, sem água, era visto como costume bárbaro. O comportamento “civilizado” era misturar água ao vinho. Somente em cerimoniais religiosos era utilizado vinho puro, sem água.

As venationes tinham custos extremamente elevados e só podiam ser patrocinados por membros da elite romana ou ricos comerciantes em busca de projeção social. Na África Romana, a riqueza era fundamentada na produção de cereais, azeite e vinho.

No momento em que o Império Romano se consolidou como poder hegemônico e o Mediterrâneo tornou-se o “mare nostrum”, os banquetes e as caçadas de anfiteatros exteriorizaram a prosperidade e estabilidade do Império, ou seja, a Pax Romana.



Lúculo, o general

O general romano Lúculo deixou menos fama como guerreiro do que como boa vida. Dono de uma enorme fortuna, seus banquetes se destacavam na Roma antiga. Um diálogo famoso, registrado por MFK Fischer em “Um Alfabeto para Gourmets” (Companhia das Letras), ajuda a dar uma idéia do vínculo entre comida e vida social na época em que os romanos dominavam o mundo ocidental.



M de Monástico

Ao que me parece, já escreveram até demais a respeito dos prazeres persistentes que um gourmet sagaz pode desfrutar quando aplica, consigo apenas, os princípios de excelência culinária que defende. Lúculo‚ invocado com excessiva frequência para endossar esta disposição solitária, e muitas pessoas secretamente ansiosas para participar de um churrasco no vizinho, consolam-se ao recordar a rara ocasião em que o famoso general romano jantou sozinho.

Lúculo admoestou o cozinheiro, ao sentir uma pontada de desleixo na organização do cardápio. “Mas, nobre senhor” (ou Vossa Excelência, ou qualquer tratamento dado a um homem rico como ele, há dois mil anos), “não receberemos ninguém esta noite”, tartamudeou o pobre serviçal, “e portanto...”
Era o bastante para o excepcional gastrônomo, que deu de ombros e interrompeu o cozinheiro, friamente: “Esta noite - ora, esta noite, para jantar, Lúculo recebe Lúculo!”

Fontes:

"Banquete Romano, comensalidade em tempo de paz", de Regina Maria da Cunha Bustamante, professora e pesquisadora do Laboratório de História Antiga (LHIA) e do Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da UFRJ.

 

 

 

 
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