A Cerâmica tradicional japonesa em Cunha
por Celso Nogueira


 

Um grupo de ceramistas japoneses instalou-se no antigo matadouro da cidade de Cunha, no Vale do Paraíba paulista. Em meados dos anos 1970 começou um movimento criativo que aos poucos  encampou artistas locais.

O maior problema dos ceramistas japoneses talvez seja hoje a falta de lenha para alimentar os fornos noborigama, fundamentais para a criação de peças originais. Em algumas regiões do país é proibido queimar madeira. Problema sério para a tradição que em alguns casos está na décima-quinta geração, como Tashiro Seijuemon. Por isso um grupo resolveu vir para o Brasil nos anos 1960.

O forno noborigama precisa ser construído em terrenos com declive, pois é formado de diversas câmaras interligadas, numa rampa em geral ladeada por escada. O forno de Suenaga e Jardineiro é um dos mais belos de Cunha.

Em japonês,  nobori significa rampa e gama, forno.

Um artista de origem portuguesa chamado Alberto Cidraes convidou japoneses como Mieko Ukeseki para vir ao Brasil e construir um forno. A prefeitura de Cunha cedeu o antigo matadouro para o ateliê ser montado. Os japoneses buscavam lenha, matéria-prima essencial para a queima no forno noborigama.

No Japão eles usavam até lenha artificial, um pó de madeira prensado. O grupo encontrou em Cunha a lenha, o barrro e a hospitalidade que procuravam. Da troca de conhecimento e do convívio nasceu um pólo de cerâmica criativa.

No forno noborigama a temperatura chega a mil e trezentos graus centígrados. Línguas de fogo são lançadas de módulo em módulo, à medida em que a temperatura sobe. Quando termina a queima, é preciso esperar vários dias até que o forno esfrie. O contato prematuro com o ar pode quebrar as peças. Uma fornada exige meses de trabalho. Por isso sua abertura é uma festa ansiosamente aguardada.

O casal Mário e Mieko mantém um dos ateliês pioneiros de Cunha, onde criam peças próprias e realizam trabalhos para artistas plásticos famosos, como Antonio Carelli, radicado em Caraguatatuba. Além da parceria artística, Carelli dedicou-se durante muitos anos a promover o trabalho dos ceramistas de Cunha, em exposições como a Arte Litoral Norte.

A abordagem dos ceramistas japoneses se baseia em um conceito de arte que não exclui os utilitários. Uma caneca de chá vale tanto quanto uma escultura. A distinção entre uso e fruição não se sustenta. O belo se torna útil que se torna belo. Estética e praticidade convivem em harmonioso conflito. A arte paneleira de Benedita Maria da Conceição, que trabalhou até os 92 anos, ganhou nova dimensão no diálogo com a milenar cerâmica japonesa.



Intercâmbio

O matadouro transformado em ateliê de cerâmica foi desativado em 1984 e voltou a funcionar em 2002, dirigido por Cidraes. Hoje é um centro cultural que apresenta eventos ligados a design, música, arquitetura e, claro, cerâmica. Quando não está dando cursos na universidade de Xangai, Cidraes se dedica a atividades no local.

Ao lado do antigo matadouro fica a oficina de cerâmica de Luiz Toledo. Ele morava do lado e se tornou um dos primeiros ajudantes do grupo. Toledo é reconhecido pelo estilo peculiar de suas peças. Inspirado no folclore e na tradição das paneleiras que viviam na cidade, ele se considera influenciado pelos dois grupos.
Os fornos noborigama convivem com outras técnicas de cerâmica. Para Gilberto Jardineiro, lá em Cunha está tudo misturado. A tradição é milenar, mas as peças seguem as exigências da vida contemporânea. Design moderno e utensílios que podem ir para o microondas são um dos resultados do sincretismo.



A longa
história no Japão

Para conhecer melhor a cerâmica japonesa vale a pena ler um texto de Sebastião de Meira Pimenta Jr. O artista estudou cerâmica no Japão. Atualmente leciona e mantém ateliê na cidade de Governador Valadares-MG.
O site dele é  http://www.atelierpimenta.pro.br/ e o ensaio A TradiçãoCerâmica no Japão (Soma Koma Yaki) encontra-se em  www.ceramicanorio.com ( Aprendendo ou Relembrando – Soma Koma Yaki – Celadon veja também a matéria sobre queima em Noborigama)



Endereços – O DDD de Cunha é (12)

Mieko e Mário Konishi (r. Gerônimo Mariano Leite, 510, tel. 3111-1468)
http://miekoemario.sites.uol.com.br
Alberto Cidraes (r. Manuel Prudente de Toledo, 461, Alto do Cajuru, tel. 3111-1628)
http://cidraes.com
Suenaga e Jardineiro (r. Dr. Paulo Jarbas da Silva, 150, tel. 3111-1530).
http://www.ateliesj.com.br/
Luiz Toledo (al. Lavapés, 555, tel. 3111-3281)
Augusto Campos (R. Gerônimo Mariano Leite, 390, tel. 3111-1361)
Leí Galvão (Av. Antônio Luiz Monteiro, 816, tel. 3111-1937).
Sandra Bernardini (estr. Municipal do Paraibuna, km 9, tel. 3111-1946)
Zahiro e Gitika (Anand Ateliê) (SP-171 p/ Parati, km 61,5, tel. 3111-3099). Carvalho (r. Gerônimo Mariano Leite, 190, tel. 3111-2483)

 

Imperdível Cunha

Localizada entre Guaratinguetá/SP e Paraty/RJ com acesso pela rodovia Dutra sentido SP/RJ saída 65 (a 220 km da capital de SP e 290 km do RJ). Região serrana, cercada pelas Serras do Mar, Quebra-Cangalha e da Bocaina. Com população de 25 mil habitantes, destaca-se pela culinária  criativa (truta, shiitake, pinhão) e comida caipira no fogão a lenha. Ali está o Parque Nacional da Serra da Bocaina, com a Pedra da Macela, além do Parque Estadual da Serra do Mar que abriga remanescentes da Mata Atlântica. Cunha possui ótimas pousadas e pode se tornar a nova Campos do Jordão, pois promove festivais de música e arte.

A estrada para Paraty corta o parque, por isso não tem muita manutenção. A descida pode se transformar numa aventura para jipeiros. Quem não é do ramo precisa tomar cuidado.

Os principais rios são o Paraibuna e o Bonito. Encravada entre as montanhas das serras do Mar, Quebra-Cangalha e da Botina, fica a  meio caminho entre o eixo da Dutra (Guaratinguetá) e o mar (Paraty), distando 47 quilômetros de cada uma destas cidades.
     
 

Por Celso Nogueira - tradutor, editor e redator especializado em alimentos e bebidas, trabalha com marketing de relacionamento em uma multinacional e faz traduções literárias e gastronômicas, além de realizar palestras e conduzir degustações sobre gastronomia, cachaça e charutos. Foi um dos fundadores e atuou como diretor da confraria Cigar Club.

 
     
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